O referendo revogatório na Bolívia e a aparente ratificação do presidente, Evo Morales, não resolvem os problemas que dividem o país, sugerem analistas ouvidos pela BBC Brasil.

    Os resultados preliminares indicam que Morales obteve amplo apoio na região andina, mas o mesmo não aconteceu no leste do país.

    De acordo com o analista político Gonzalo Chávez, professor da Universidade Católica Boliviana, com sede em La Paz, a votação confirmou, uma vez mais, a divisão política e social na Bolívia.

    "O país está dividido entre os que querem inclusão social e os que querem autonomia. É preciso encontrar um denominador comum, com inclusão e autonomia", disse Chávez, por telefone, à BBCBrasil.

    "Agora os políticos é que devem se entender. Os bolivianos já deram seu voto e mais de uma vez".

    Para ele, o primeiro passo para o entendimento deveria ser um "pacto fiscal" com a melhor distribuição dos recursos gerados pelos hidrocarbonetos - a Bolívia possui a segunda maior reserva de gás da América Latina, mas é um dos países mais pobres da região.

    Já para o analista político José Luis Galvez, do Instituto Equipos Mori, o referendo "não resolve os problemas do país" e é "difícil" imaginar o diálogo entre governo e oposição.

    Recursos

    A disputa política envolve espaço por poder de decisão e os recursos gerados por este setor. Os prefeitos (equivalentes a governadores) da oposição anunciaram, domingo, que vão manter a greve de fome, iniciada na semana passada.

    O protesto é para que o governo restitua às prefeituras 30% de um imposto petroleiro cortado para financiar um benefício mensal de US$28 (R$45) aos maiores de 60 anos.

    Por sua vez, no estatuto de autonomia política e financeira aprovado em Santa Cruz, a previsão é de que a região passe a administrar os recursos gerados pelos hidrocarbonetos.

    Neste ano, os departamentos de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando - região conhecida como "meia lua" - votaram pela autonomia política e financeira do governo central.

    Santa Cruz, rica em soja e petróleo, e Tarija, rica em gás, são as principais geradoras de renda do país. Por isso, os prefeitos argumentam que deveriam ter direito a mais recursos.

    No referendo de domingo, os quatro prefeitos opositores da "meia lua" teriam sido ratificados nos postos, segundo pesquisas de opinião.

    Morales

    O governo central argumenta que a riqueza é "de todos os bolivianos" e o gás, costuma dizer Morales, deve contribuir para reduzir a pobreza. Os maiores índices de pobreza estão na região onde vive a maioria indígena que o apóia.

    O líder boliviano também planeja que seu governo tenha maior ingerência sobre os recursos petroleiros, como prevê a nova constituição - que ainda precisa ser ratificada.

    No domingo, Morales disse que adotará medidas para implementar a nova carta magna - um dos motivos de discórdia entre governo e oposição.

    "Morales vai tentar fazer isso e vai gerar ainda mais confusão", disse Gonzalo Chávez.

    "Ele estará defendendo a constituição por um lado e os prefeitos da oposição defendendo a autonomia por outro", afirmou.

    Os prefeitos da "meia lua" reiteraram, domingo, após a votação, que Morales teria sido "revogado" nessa região. Esse cenário de disputas torna o diálogo pouco provável, reiterou Galvez, do instituto Equipos Mori.

    "O cenário do diálogo e da reconciliação é um desejo de todos, mas esse é o cenário menos provável", disse. "A polarização é tão grande que é difícil imaginar esse diálogo".

    Desde que Morales assumiu o poder, em 2006, os bolivianos votaram para eleger os constituintes em todo país e a região da "meia lua" realizou eleições pela autonomia.

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