Referendo na Bolívia é marcado pela violência

Um referendo de autonomia organizado pela região mais rica da Bolívia em desafio ao presidente socialista Evo Morales provocou neste domingo uma onda de violência que deixou pelo menos 20 feridos.

AFP |

Os partidários de Morales, que denuncia o referendo "separatista" organizado pela província oriental de Santa Cruz, tentaram impedir pela força a realização do plebiscito, queimando urnas e cédulas de voto.

O referendo é crucial para o governo boliviano já que Santa Cruz concentra a maior parte dos campos de gás, a principal fonte de riqueza deste país de nove milhões de habitantes, o mais pobre da América do Sul.

Feudo da oposição liberal, a região dominada pelos latifundiários contesta a nova Constituição defendida por Morales, que prevê a redistribuição das terras e dos recursos do gás.

Os confrontos mais violentos aconteceram no bairro pobre de Plan 3000, na periferia da capital regional Santa Cruz, onde vive uma importante comunidade indígena que apóia o chefe de Estado, o primeiro presidente indígena da Bolívia.

Urnas e cédulas de voto foram queimadas neste bairro de 250.000 habitantes, onde manifestantes tentaram, sem sucesso, invadir um centro de votação.

De acordo com uma fonte médica, um homem de 70 anos que assistia aos confrontos morreu asfixiado por gases lacrimogêneos.

"O referendo está marcado pela violência. Foram registrados 18 feridos em Plan 3000 e outros dois na localidade de Montero", declarou o ministro do Governo, Alfredo Rada, em entrevista coletiva concedida no palácio presidencial, em La Paz.

Dominada pela oposição, a região de Santa Cruz convocou quase um milhão de eleitores a se pronunciaram neste domingo sobre um estatuto de autonomia para a província, com o objetivo de administrar seus próprios recursos e criar sua força de polícia.

"Este referendo foi fomentado pelos patrões para roubar nossos recursos e oferecê-los às multinacionais estrangeiras", declarou à AFP Luis Flores, um artesão de 40 anos que apóia o Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales.

Barreiras nas estradas foram edificadas ao amanhecer para impedir a chegada das urnas a San Julian e Yapacani, feudos do partido socialista presidencial, cerca de 100 km ao norte de Santa Cruz.

Funcionários eleitorais foram recebidos a socos e urnas foram destruídas em San Julian, segundo imagens divulgadas pela televisão local.

Em dissidência com as autoridades centrais, a Corte eleitoral de Santa Cruz, que organiza o referendo, minimizou os incidentes, evocando "atos isolados".

"Estamos satisfeitos com a jornada eleitoral. Quase 97% dos centros de votação funcionaram normalmente", declarou à AFP o vice-presidente da corte, José Ernesto Zambrana.

Esta crise aumenta a divisão entre a comunidade indígena das montanhas do Oeste e a população das planícies agrícolas do Leste, cuja maioria é de origem européia.

Várias centenas de policiais nacionais foram enviados a Santa Cruz, onde cerca de 1.000 agentes municipais desarmados foram encarregados de garantir a segurança nos colégios eleitorais.

Os centros de votação começaram a fechar suas portas às 16H00 locais (17H00 de Brasília), e os resultados devem ser anunciados às 18H00 locais (19H00 de Brasília).

O poder central se recusa a conceder qualquer valor jurídico ao referendo, cujo resultado já parece definido: segundo as últimas pesquisas, a autonomia é aprovada por 70% da população de Santa Cruz.

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