Refém mais antigo das Farc reencontra família na Colômbia

Depois de mais de 12 anos de cativeiro, o oficial do Exército colombiano Pablo Emilio Moncayo foi libertado pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nesta terça-feira e entregue a uma missão humanitária que contou com o apoio do Brasil. Moncayo chegou ao aeroporto de Florencia, capital do Departamento (Estado) de Caquetá, às 17h40 (19h40 em Brasília).

BBC Brasil |

Visivelmente emocionado, vestido com uniforme militar, o ex-oficial foi recebido pela família e permaneceu o tempo todo abraçado ao pai, Gustavo Moncayo.

No reencontro, Moncayo, que tinha 18 anos quando foi sequestrado, conheceu a irmã mais nova, que o recebeu com flores brancas, e os sobrinhos, que nasceram quando ele estava em cativeiro.

Logo depois, foi recebido por oficiais do Exército e por familiares de reféns e ex-reféns da guerrilha.

'Volta à civilização'
Questionado sobre o que pensava das Farc, depois de 12 anos de sequestro, Moncayo disse que sua interpretação da guerrilha "não mudaria o rumo da história da Colômbia".

"São uma realidade que não se pode negar. Parecem invisíveis, mas estão aqui", afirmou, em entrevista coletiva no início da noite desta terça-feira.

Moncayo, disse ter "orgulho" de ter vestido o uniforme militar durante o período em cativeiro e afirmou estar assustado com o avanço da tecnologia ao longo deste período.

"Não sabem o quão assombroso é voltar à civilização", afirmou.

O ex-refém agradeceu as manifestações "titânicas" de seu pai a favor de sua libertação e aos presidentes do Brasil, Equador e Venezuela. Moncayo não fez menção ao governo de Álvaro Uribe.

Correntes
Como era esperado, horas depois da libertação Moncayo retirou as correntes que seu pai trazia atadas às mãos como símbolo de sua luta pela libertação do filho.

Moncayo foi sequestrado em dezembro de 1997 - apenas 18 meses depois de ter ingressado no Exército - junto com outros 17 soldados, em um ataque das Farc a uma base de operações do Exército colombiano no Departamento de Nariño. Deste grupo de sequestrados, 16 militares já foram soltos.

O sequestro de Moncayo ganhou projeção internacional em junho de 2007, quando seu pai realizou uma caminhada de 46 dias do Departamento colombiano de Nariño à capital Bogotá para exigir do governo de Álvaro Uribe celeridade no processo de soltura de seu filho e dos demais reféns da guerrilha.

Desde então, Gustavo Moncayo passou a ser conhecido como o "Caminhante pela Paz".

Além de manifestações na Colômbia e em pelo menos cinco países europeus, no ano passado Gustavo Moncayo caminhou 1,6 mil quilômetros até a capital da Venezuela, Caracas, para pedir a intervenção do presidente venezuelano, Hugo Chávez, na mediação entre o governo colombiano e a guerrilha para a libertação dos reféns.

Troca de prisioneiros
A senadora Piedad Córdoba, que participou da operação de resgate e é a principal mediadora entre o governo e as Farc, recebeu nesta terça-feira do grupo armado as coordenadas de onde será entregue o corpo do capitão da Polícia Julián Ernesto Guevara, morto em cativeiro. A data para a entrega ainda não está confirmada, mas estima-se que poderia ocorrer entre quinta e sexta-feira.

Com a libertação de Moncayo e do soldado Josué Daniel Calvo, no domingo, chega ao fim o processo de libertações unilaterais e incondicionais que vinham ocorrendo desde o ano passado, quando seis reféns foram soltos pelas Farc.

Em um comunicado divulgado nesta terça-feira, as Farc afirmam que partir de agora pretendem negociar uma "imediata troca de prisioneiros". O grupo quer trocar guerrilheiros presos na Colômbia e outros que foram extraditados aos Estados Unidos pelos 22 oficiais que ainda estão em seu poder.

Para a senadora Piedad Córdoba, um acordo humanitário para a libertação dos reféns ainda em poder das Farc deveria ser fechado antes do final do mandato do presidente Uribe, que deve deixar o poder dia 7 de agosto.

Caso contrário, disse Córdoba, um acordo "seria difícil" e poderia demorar "pelo menos outros dois ou três anos" durante a gestão de um novo governo.

No domingo, Uribe disse estar disposto a negociar um acordo com a guerrilha, sob a condição de que os rebeldes soltos abandonem definitivamente a luta armada.

O governo colombiano, a Cruz Vermelha Internacional, o movimento Colombianos pela Paz e a família Moncayo agradeceram, em diferentes momentos, o apoio do governo brasileiro, que cedeu dois helicópteros e dez militares para a realização dos dois resgates realizados entre domingo e esta terça-feira.

No comunicado divulgado nesta terça, as Farc agradecem particularmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo apoio logístico prestado à missão humanitária e aos pilotos brasileiros "por sua perícia e profissionalismo".

Transmissão
A transmissão de imagens da libertação de Moncayo causou atrito entre o governo colombiano e o canal multiestatal Telesur.

Pouco antes da chegada do refém a Florência, a emissora transmitiu imagens exclusivas do momento em que Moncayo encontrou-se com a missão humanitária no local do resgate.

O canal também teve acesso a um vídeo no qual se vê Moncayo dando voltas em círculo, impaciente, à espera da chegada do helicóptero brasileiro.

Durante a transmissão ao vivo, a repórter da Telesur deu a entender que o vídeo havia sido gravado pela guerrilha e entregue ao canal.

A difusão dessas imagens provocou a reação do governo colombiano, que acusou o canal de fazer propaganda para as Farc.

"O governo rejeita que um meio de comunicação como a Telesur se preste a fazer propaganda de um grupo terrorista e sequestrador como as Farc", afirmou o Alto Comissário para a Paz, Frank Pearl, por meio de um comunicado lido no aeroporto de Florência.

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