Refém das Farc conversou com pauzinhos para não enlouquecer

Por Patrick Markey BOGOTÁ (Reuters) - Proibido de falar com os responsáveis por mantê-lo em cativeiro, um ex-congressista colombiano que escapou depois de passar oito anos sequestrado disse na segunda-feira que dava aulas imaginárias usando pauzinhos como alunos a fim de não enlouquecer.

Reuters |

Oscar Tulio Lizcano, 63, escapou caminhando pela selva, ao longo de três dias, ao lado de um membro da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), até atingir um posto do Exército, no domingo, onde o militante rebelde entregou-se.

A fuga de Lizcano representa o mais recente golpe contra as Farc, que já perderam três de seus comandantes neste ano, período durante o qual a campanha militar do governo do presidente Alvaro Uribe obrigou os rebeldes a ingressar ainda mais para dentro das regiões de mata. As operações contam com o apoio dos EUA.

"A solidão era terrível. Eles estavam proibidos de falar comigo", afirmou à rádio Caracol Lizcano, um ex-professor universitário. "Eu colocava pauzinhos no chão, dava-lhes nomes e ministrava aulas. Durante duas ou três horas por dia, imaginando-me em uma sala de aula."

O refém inventou aulas de espanhol e de estudos sociais, segundo revelou um jornal colombiano.

Lizcano disse ter ficado sozinho durante a maior parte de seu período de cativeiro, acompanhado apenas de livros, mensagens de rádio vindas de familiares e conversas breves com líderes da guerrilha.

Exausto, com roupas rasgadas e uma barba grisalha por fazer, o ex-congressista escapou enquanto uma patrulha de guerrilheiros o perseguia.

FARC ENFRAQUECIDAS

A fuga de Lizcano ocorreu quatro meses depois de reféns famosos, entre os quais a franco-colombiana Ingrid Betancourt e três norte-americanos, terem sido libertados em uma operação militar surpresa.

O ex-congressista disse que um outro guerrilheiro havia se oferecido para escapar com ele, mas que esse homem acabou sendo executado quando os companheiros o descobriram na parte externa do acampamento.

O rebelde que fugiu ao lado dele, conhecido por Isaza, recebeu uma oferta de asilo na França e uma recompensa paga pelo governo de Uribe aos guerrilheiros que desertam acompanhados de reféns.

As Farc, antes um poderoso grupo armado, sofreu vários reveses por meio da operação militar cada vez mais intensa realizada pelo governo e por meio da deserção de integrantes de suas fileiras, que forneceram às autoridades colombianas informações sobre a localização dos rebeldes e sobre seu aparato de comunicações.

Sob pressão dos militares, os responsáveis por manter Lizcano preso careciam de comida e eram obrigados a comer palmito e raízes de plantas silvestres a fim de continuarem vivos, afirmou o ex-refém. Ele disse que os guerrilheiros mudavam-se diariamente a fim de evitar as patrulhas das Forças Armadas.

Não obstante a execução do outro rebelde, Isaza prometeu ajudar o refém. "Meu velho, você vai morrer aqui. Eu vou ajudá-lo a sair daqui", disse-lhe Isaza, segundo Lizcano.

Os dois homens fugiram à noite e ficaram três dias caminhando pela mata. Lizcano estava enfraquecido devido a uma febre e tinha os pés inchados. Eles se escondiam de dia e, à noite, avançavam sob o comando de Isaza, que sabia como chegar ao entreposto do Exército.

"Não havia alternativa. Era morrer ou sair dali", disse o ex-refém. "A coisa estava ficando complicada devido à pressão dos militares e à fome. Não havia outra alternativa."

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