Partido de líder conquista Congresso e maioria de províncias, em poder inédito desde volta da Argentina à democracia, em 1983; economia será desafio

A presidenta argentina, a peronista Cristina Kirchner, conquistou uma reeleição histórica que lhe permite acumular o controle do Congresso e de governos aliados na maioria das províncias, um poder inédito desde o retorno do país à democracia, em 1983.

A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner (C), chora enquanto abraça seu filho Maximo e sua filha Florencia depois das eleições em que foi reeleita(23/10/2011)
AP
A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner (C), chora enquanto abraça seu filho Maximo e sua filha Florencia depois das eleições em que foi reeleita(23/10/2011)
No mapa nacional renovado, o socialista Hermes Binner, segundo nas eleições presidenciais, e o prefeito de Buenos Aires, o conservador Mauricio Macri , posicionam-se como referência de uma fragmentada oposição que ficou mais de 30 pontos porcentuais atrás de Cristina nas eleições gerais de domingo. "A sociedade compreendeu que a Argentina não pode estar em mãos de improvisados", afirmou à imprensa o chefe de Gabinete argentino, Aníbal Fernández.

A governante, líder do peronista Frente para a Vitória (FPV), foi reeleita para um novo mandato de quatro anos com 53,96% dos votos, seguida por Binner com 16,87%, após 98,25% das urnas apuradas nesta segunda-feira.

Cristina, a primeira mulher do continente a conseguir uma reeleição presidencial, obteve o maior percentual de votos desde o retorno da democracia argentina e uma das maiores diferenças em relação ao segundo colocado na história da política local.

Após ter vencido em 23 dos 24 distritos eleitorais argentinos, tornou-se líder do primeiro partido a alcançar três mandatos consecutivos na nação. A vitória arrasadora da chefe de Estado impulsionou os candidatos legislativos da sua lista, que recuperaram a maioria do governo, e dos aliados na Câmara dos Deputados e no Senado.

Dessa forma, o governo reverteu a derrota que o ex-presidente Néstor Kirchner, marido e antecessor de Cristina, morto em 2010, enfrentou nas parlamentares de 2009. A partir de dezembro, a FPV contará com 116 cadeiras, mais outras 17 de aliados na Câmara, enquanto a social-democrata União Cívica Radical (UCR), segunda força parlamentar, terá 41 legisladores, segundo os cálculos provisórios.

No Senado, o FPV controlará 32 cadeiras mais outras seis de aliados, enquanto a UCR terá 17 assentos. Nos dois casos, o governo contará com quórum próprio, o que lhe permitirá abrir debates e aprovar projetos. Além disso, candidatos afinados com Cristina ganharam oito das nove eleições a governador no domingo, entre elas a de Buenos Aires, maior província e distrito eleitoral do país.

"Foi demonstrada a capacidade de gestão e experiência", opinou o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, que conseguiu a reeleição com 55% dos votos. O único distrito com resultado contrário para o governo foi San Luis, onde ganhou Claudio Poggi, próximo do governador e aspirante presidencial Alberto Rodríguez Saá, do peronismo dissidente.

Dessa forma, a Frente para a Vitória e seus aliados governarão a partir de dezembro 20 dos 24 distritos eleitorais do país, como resultado das eleições provinciais realizadas ao longo do ano. "Se confirmou a hegemonia do 'cristinismo'. Cristina foi a candidata que reinventou o kirchnerismo e emerge como a figura política que mais poder acumulou desde a transição para a democracia", opinou o analista Sergio Berensztein, da empresa de consultoria Poliarquía.

Como o segundo mais votado, Binner tentou fazer contrapeso ao se definir na noite de domingo como líder da "segunda força política" do país. "É preciso consolidar a Frente Ampla Progressista e estamos abertos a outras propostas, sempre mantendo o programa de governo", afirmou Binner.

Além disso, o dirigente socialista, governador da Província de Santa Fé, prometeu exercer "uma oposição responsável" com uma atitude "propositiva" para o governo. O conservador Macri, que já manifestou seu desejo de conseguir a presidência em 2015, lamentou em coletiva que não tenha acontecido "uma proposta de mudança articulada" da oposição.

Entretanto, o prefeito comemorou que quase um em cada cinco portenhos tenha votado pela lista de legisladores da sua força Proposta Republicana, que não contou com um candidato presidencial.

Desafios do novo governo

Apesar do avassalador respaldo popular com que iniciará seu segundo mandato em dezembro, Cristina deverá enfrentar o impacto da crise mundial no crescimento do país e no gasto social, segundo analistas. "Os pilares do modelo econômico estão em crise. A Argentina tem muitas luzes amarelas acesas na economia", disse Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete (2003-2008) da presidenta e de seu antecessor e marido.

O modelo econômico kirchnerista, com um elevado nível de subsídios, permitiu aumentar o consumo interno em 4% anuais, obter um crescimento em média de 8% desde 2003 - com exceção de 2009 - e baixar a taxa de desemprego em 7%.

Contudo, isso se traduz em um incremento de 35% anual no gasto público e uma inflação de 25%, segundo estimativas privadas, o que significa uma economia 'aquecida', mas que não pode ser sustentada enquanto os subsídios equivalerem a 4% do Produto Interno Bruto (PIB).

O país obteve nesses anos um importante ingresso de divisas graças aos altos preços internacionais de grãos, especialmente a soja, que em dez anos passou de US$ 200 para mais de US$ 500 por tonelada. Contudo, uma boa parte das divisas pode sair do país: "O governo de Cristina se caracterizou pela saída de US$ 70 bilhões em quatro anos", afirmou Fernández.

"Nos últimos cinco anos o resultado fiscal piorou, o que prova o impulso extra que o governo deu à economia", opinou Martín Lousteau, ex-ministro da Economia da atual presidente. "É uma bola de neve: os subsídios chegaram a 75 bilhões de pesos (US$ 17 bilhões), o que equivale a 4% do PIB", disse Lousteau.

Soledad Pérez Duhalde, da consultoria Abeceb, afirmou que "as contas do fisco refletem que é necessário algum ajuste, porque é insustentável o nível atual de subsídios, principalmente no que se refere às tarifas residenciais do setor energético".

Para a economista, a diminuição dos subsídios para o transporte e aumento das taxas de serviços públicos "será feita de forma gradual, já que seu impacto será grande". "Muito se fala de um eventual pacto social (Estado, empresário e trabalhadores) para moderar expectativas inflacionárias e ampliar os horizontes", disse Sergio Berensztein, diretor da consultora Poliarquía.

Outra questão pendente é o retorno ao mercado de capitais, do qual o país foi isolado após a moratória de US$ 100 bilhões em 2001, o maior da história. A Argentina, desde então, cancelou suas obrigações externas com reservas do Banco Central (BCRA), que possui atualmente mais de US$ 47 bilhões.

Sem dívidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois de pagar US$ 9,81 bilhões em 2006, o governo ainda tem um pendente passivo de aproximadamente US$ 8 bilhões com o Clube de Paris.

"Há um problema político, porque uma renegociação com essa entidade parece exigir a presença do FMI, uma organização com a qual a Argentina não quer negociar", disse Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres.

O governo deve pagar em dezembro, perto do vencimento, US$ 2,7 bilhões, enquanto a necessidade de financiamento no primeiro ano de seu segundo mandato não excede US$ 4 bilhões.

*Com EFE e AFP

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