Redes de relacionamento social abrem portas para discussões sobre amizade

Mateo Sancho Cardiel. Redação Central, 28 dez (EFE).- As redes de relacionamento social se tornaram um negócio lucrativo, um filão a ser explorado pela publicidade e um instrumento de entretenimento para milhões de usuários, mas o que ainda resta de sua essência inicial, a de transformar o mundo em um lugar sem barreiras para a amizade? Ninguém teria apostado em algo tão comum quanto o sentimento amistoso como rival da pornografia na internet, mas as redes sociais, com o Facebook e o MySpace à frente, ficaram à frente em 2008, pela primeira vez, dos sites com conteúdo sexual na web.

EFE |

As pessoas tinham tanta necessidade de encontrar amigos? A internet parece decidida a redefinir, globalizar e, talvez, reavaliar o conceito de amizade, descrito como "afeto pessoal, puro e desinteressado, partilhado com outra pessoa"? O cantor Roberto Carlos já dizia: "Eu quero ter um milhão de amigos". Um dos primeiros sites a explorar essa possibilidade foi o MySpace, através de uma visão de "autopromoção", de revelações, que trouxe à luz artistas como Mika, Lily Allen ou Artic Monkeys.

Eles apresentaram no site de relacionamentos sociais seus trabalhos e foram ouvidos por milhares de usuários.

Já o Facebook, com 140 milhões de usuários hoje em dia, baseou seu charme, por outro lado, na experiência de seis graus de separação -que uniria uma pessoa a outra completamente desconhecida com apenas seis indivíduos em comum entre elas -, e transformou a amizade em negócios.

Após a ilusão inicial de reencontrar pessoas com as quais o contato havia sido perdido no passado, antigos colegas de escola ou parentes vivendo a milhares de quilômetros de distância, as portas desta "amizade" se abrem agora para qualquer desculpa e a informação pessoal é divulgada às claras.

Porém, o que se pode esperar destas pessoas que têm outros 250 amigos em seu perfil? Elas são tão legais assim ou o desejo de popularidade fala mais alto e o indivíduo adiciona vários desconhecidos só para causar boa impressão? Na Universidade da Califórnia (UCLA), um estudo demonstrou que, longe de melhorar a tolerância com o que é diferente, os dados objetivos colocados por uma pessoa em seu perfil fomentam a endogamia e a autocomplacência. Os investigadores até possuem um nome no fenômeno: "homofilia".

"É uma grande decepção para os utópicos da internet que pensaram que o meio se transformaria, de alguma forma, na maneira mais fácil de conhecer gente diferente", assegura Andreas Wimmer, um dos responsáveis do estudo, e, de fato, começam a proliferar redes sociais temáticas.

Assim, a Tuenti opera na Espanha, a Mixi no Japão e a Cyworld na Coréia do Sul. A Webkinz se centra nos menores e a SagaZone nos idosos. Ainda há outras curiosas, como o Hatebook, que possuem entre seus membros pessoas mal-humoradas.

Mas Wimmer destaca que amizade é outra coisa. "Dado que as relações íntimas requerem um tremendo investimento de tempo e emoção, queremos estar certos de que o outro é merecedor deste investimento, e é impossível de calcular isto se não for com a comunicação não verbal".

Os pesquisadores do West London Mental Health Truth coincidem com esta visão. Mas questionam o fato de um termo como "relação íntima" não estar em processo de metamorfose.

"É um mundo no qual tudo acontece muito rápido, no qual tudo muda continuamente e no qual basta clicar com o mouse do computador para pôr fim a uma relação", afirmou o psiquiatra Himanshu Tyagi na reunião anual do Real Colégio de Psiquiatras do Reino Unido, em julho, em Londres.

Essa mesma idéia de frivolizar as relações foi o que fez o jornalista britânico Victor Keegan descrever este tipo de amizade como "a nova filatelia", em artigo para o "The Guardian".

O especialista destacou que o Facebook pode contemplar esse grau de comunicação para mensagens que se "fossem mandadas por SMS seriam intrusivas e, por telefone, estariam totalmente fora de lugar".

Mas, enquanto há muitos estudos sobre as mudanças sociais que esta nova tendência pode gerar, também é motivo de preocupação como reflexo de conflitos antigos.

A cada vez mais onipresente questão do direito à intimidade afeta páginas nas quais fotografias, dados, aniversário e gostos pessoais navegam com imprudência e são utilizados por empresas com fins de marketing ou de seleção de pessoal.

Não faltam pessoas que fazem um perfil falso e até conflitos políticos, como o entre israelenses e palestinos, que transferem seus dilemas às 500 comunidades do Facebook. EFE msc/db

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