Fragmentos de fósseis revelam que um temível predador, batizado de Hurdia Victoria, inicialmente descrito como um tipo de crustáceo, pode esclarecer a origem dos artrópodes, grupo no qual se incluem 80% das espécies conhecidas do planeta - de acordo com estudo publicado nesta quinta-feira.

Esses pedaços de fósseis, montados como um quebra-cabeça, foram encontrados no sítio arqueológico de Burgess Shale, em British Columbia (Canadá), considerado patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Os primeiros fragmentos foram descritos há quase um século como sendo de uma espécie de crustáceo. Os paleontólogos ainda não tinham se dado conta de que outras partes fossilizadas, dispersas por outras coleções, haviam sido apresentadas como diferentes animais, entre eles uma medusa, um pepino-do-mar e outros artrópodes.

Escavações realizadas na década de 1990 permitiram obter espécimes fossilizados mais completos e centenas de fragmentos isolados. Esse novo material mostrou que o Hurdia era bem maior do que parecia.

A última peça desse quebra-cabeça, bem preservada, foi encontrada em uma coleção do Museu de História Natural da Smithsonian Institution, em Washington - explicam Allison Daley e Graham Budd, paleontologistas da Universidade de Uppsala (Suécia), co-autores desses trabalhos publicados na edição de 20 de março da revista americana "Science".

A nova descrição do Hurdia Victoria indica que há um grau de parentesco com o "monstro" predador Anomalocaris. Assim como ele, o Hurdia, que dominava os oceanos no período Cambriano (há 540-500 milhões de anos), tinha um corpo segmentado, com uma cabeça de onde saía um par de garras. Também tinha uma potente mandíbula circular dotada de vários dentes, o que lhe valeu o apelido de "tiranossauro do Cambriano".

A diferença para o Anomalocaris era sua enorme carapaça, em três partes, que se estendia na frente da cabeça, o que, para os pesquisadores, é um mistério. O animal tinha dois metros de comprimento, dos quais metade correspondia a esse revestimento.

"Esse tipo de carapaça nunca foi observado em nenhum outro fóssil de artrópode, ou artrópode vivo", destacou Allison Daley, que estudou esses restos animais por três anos.

"O uso dessa grande carapaça que prolonga a cabeça do animal é um mistério", acrescentou a pesquisadora.

"Na maioria dos animais, uma carapaça, ou uma concha, serve para proteger os tecidos moles do corpo, como no caso do caranguejo, ou da lagosta, mas no Hurdia, essa parte é vazia e não cobre o restante do corpo", comentou Allison Daley.

O Hurdia e o Anomalocaris são duas das primeiras espécies de artrópodes, o enorme grupo que compreende os insetos, os crustáceos, os aracnídeos e os miriápodes.

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