Rebekah Brooks nega ter pago policiais para obter informações

Em depoimento, ex-editora-executiva da News International diz que tabloide só contratou investigadores para apurações 'legítimas'

iG São Paulo |

AP
Rebekah Brooks responde perguntas de parlamentares britânicos em Londres
A ex-editora-executiva da News International, Rebekah Brooks , negou nesta terça-feira ter pago policiais para obter informações enquanto foi editora do tabloide " News of the World ', entre 2000 e 2003. Em depoimento ao Comitê de Mídia do Parlamento britânico, ela voltou a dizer que não tinha conhecimento sobre as escutas telefônicas ilegais realizadas pelo jornal.

A News International é o braço britânico da News Corporation , de Rupert Murdoch, que também prestou depoimento ao comitê nesta terça-feira.

Rebekah deixou o cargo na sexta-feira, pressionada por seu suporto envolvimento com o escândalo de escutas ilegais do jornal e compra de informações de policiais. No domingo, a ex-editora-executiva da News International foi detida e solta sob fiança após 12 horas sob custódia.

Em seu depoimento aos parlamentares britânicos, Rebekah afirmou que o "News of the World" contratou investigadores privados, mas apenas para apurações legítimas, como para localizar pedófilos. Ela também disse que a empresa de Murdoch atuou de forma "rápida e incisiva" assim que soube do caso.

Rebekah afirmou que a ideia de que um jornalista do tabloide tenham grampeado o telefone de Milly Dowler , jovem assassinada em 2002, é "repugnante". "Está claro que algo horrível aconteceu no 'News of the World', principalmente em relação às acusações de que vítimas de crimes tiveram suas mensagens interceptadas", afirmou.

Murdoch

Também nesta terça-feira, Murdoch afirmou que não é responsável pelos grampos. Durante o depoimento, que durou cerca de três horas, um jovem invadiu a sala , avançou sobre o magnata e o atingiu com uma torta de espuma de barbear.

Murdoch respondeu perguntas dos parlamentares britânicos ao lado do filho, James. "É o dia mais comovente da minha vida", afirmou o magnata no início do depoimento. Ele também disse ter ficado "chocado, estarrecido e envergonhado" com a revelação de que o jornal tinha grampeado o celular de Milly Dowler.

Questionado se era responsável pelo escândalo das escutas ilegais, Murdoch foi conciso: "Não." Após o membro do Parlamento insistir no assunto, o magnata sugeriu que tinha sido enganado no caso: "(São responsáveis) as pessoas em quem confiei, e as pessoas em quem elas por sua vez confiaram."

Com aparência frágil e falando de forma confusa, Murdoch afirmou que conversava com o editor do "News of the World" apenas uma vez por mês e que "perdeu o jornal de vista" porque ele representava menos de 1% de seus negócios. Batendo as mãos na mesa algumas vezes, o magnata disse: "Emprego 53 mil pessoas éticas e distintas ao redor do mundo."

Em tom mais calmo, James Murdoch, presidente-executivo das operações internacionais da News Corp., lamentou as práticas ilegais utilizadas pelo jornal, que não "condizem com os padrões da empresa". Ele também afirmou não ter evidências de que a direção da News International, braço britânico da News Corp., sabia sobre os grampos.

James tentou intervir por diversas vezes quando seu pai foi interrogado pelo parlamentar trabalhista Tom Watson. Murdoch fazia longas pausas e parecia não saber o que dizer, mas Watson deixou claro que queria ouvir as respostas do magnata, e não de seu filho.

"Seu pai é responsável por uma companhia acusada de irregularidades sérias", afirmou o parlamentar, ao impedir uma das tentativas de James Murdoch de tomar o controle da situação. "O que ele não sabe e o que os executivos não contam a ele já é revelador."

Inicialmente, Rupert e James Murdoch tinham se recusado a comparecer perante o comitê no Parlamento, mas mudaram de ideia após receberem uma intimação formal.

Scotland Yard

A série de depoimentos começou por volta das 8h (horário de Brasília) com as declarações de Paul Stephenson , ex-comissário-chefe da Scotland Yard, diante de outro comitê, o de Assuntos Internos. Stephenson deixou o cargo no domingo após revelações de que ele contratou um editor-executivo do tabloide, Neil Wallis , como consultor de comunicação da Scotland Yard. Wallis também está envolvido no escândalo dos grampos.

Em seu depoimento, Stephenson afirmou que 10 dos 45 porta-vozes da Scotland Yard já trabalharam para a News International, mas negou qualquer ligação imprópria entre a empresa e a polícia.

Stephenson também negou ter feito um ataque ao primeiro-ministro britânico, David Cameron, ao apresentar sua demissão no domingo. Ao deixar o cargo, o ex-chefe da polícia disse que não podia discutir as acusações contra Wallis com Cameron por causa da ligação do premiê com Andy Coulson , que foi editor do "News of the World" e porta-voz do governo britânico até janeiro deste ano.

Durante o depoimento, porém, ele voltou atrás. “Não posso controlar a forma como os meios de comunicação interpretam as coisas. O que digo aqui e agora é que não foi um ataque pessoal contra o premiê”, afirmou.

"Por que não disse antes ao primeiro-ministro que o nome de Wallis estava vinculado com as escutas telefônicas? Porque não tinha razão nenhuma para relacionar Wallis com as escutas telefônicas. Não tinha razão para achar que houvesse algo inadequado", disse Stephenson.

Pela manhã, também foram ouvidos o diretor de Relações Públicas da Scotland Yard, Dick Fedorcio, e o ex-subcomissário-chefe da polícia, John Yates , que deixou o cargo na segunda-feira.

Yates foi responsável por checar o histórico de Wallis antes de sua contratação. Além disso, em 2009 ele decidiu não reabrir uma investigação sobre escutas telefônicas ilegais no "News of the World", dizendo não haver evidências de novas irregularidades.

Em seu depoimento nesta terça-feira, ele negou ter cometido qualquer irregularidade e disse que teria tomado uma decisão diferente se na época tivesse as informações que possui hoje.

Investigação

Na quarta-feira, a ministra britânica do Interior, Theresa May, anunciou a abertura de um inquérito para investigar as acusações de corrupção policial diante de denúncias de que jornalistas do "News of the World" teriam pago propina à polícia para obter informações. Para a ministra, a investigação deve tirar lições sobre a relação entre policiais e profissionais da mídia.

O jornal, que deixou de circular no dia 10 , teria interceptado ilegalmente milhares de telefones celulares em busca de notícias exclusivas. Investigações indicam que até 4 mil pessoas podem ter sido grampeadas, entre políticos, membros da realeza, esportistas, celebridades e familiares de militares mortos na guerra do Afeganistão.

Entre as possíveis vítimas das escutas telefônicas do "News of the World" também está um dos primos do brasileiro Jean Charles de Menezes , morto por engano pela polícia britânica em julho de 2005.

Na segunda-feira, um ex-jornalista do "News of the World" foi encontrado morto em sua casa em Watford, a 30 km de Londres. Sean Hoare foi o pivô de acusações contra Andy Coulson. Em nota divulgada nesta terça-feira polícia descartou a hipótese de assassinato . "Não há evidências de envolvimento de terceiros, e sua morte não é suspeita. Agora são esperados resultados toxicológicos adicionais, e está em andamento uma investigação de problemas de saúde identificados na autópsia", disse a polícia, em nota divulgada nesta terça-feira.

O escândalo vem colocando pressão sobre o premiê David Cameron, que decidiu encurtar uma viagem pelo continente africano para comparecer ao Parlamento na quarta-feira e responder às questões dos parlamentares sobre as últimas revelações do caso.

Tanto a oposição trabalhista como conservadores dentro do próprio governo têm criticado Cameron por sua decisão de contratar Coulson como seu diretor de comunicação.

    Leia tudo sobre: news of the worldgrã-bretanhagramposmurdoch

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG