Poucos quilômetros antes da parte mais deserta da BR-319 existe um posto de gasolina. Abandonado há cerca de vinte anos, ele mais parece um cenário de cidade fantasma com suas: bombas caídas e mato crescido .

Pela estrutura, entretanto, percebe-se que o movimento já deve ter sido bom: cabanas iglu para viajantes, um amplo restaurante servia comida amazonense e o espaço entre as bombas e a rua dá a impressão de que lá já houve um estacionamento.

Hoje, quase tudo está tomado por mato rasteiro, e alguém - talvez o dono protegendo o seu patrimônio? - ateou fogo nos arbustos.

Na década de 80, foram-se os carros, e a reboque foi-se o dinheiro.

Esperança
Desde então, para quem vive perto da estrada, a promessa de reabertura da BR-319 faz parte da rotina.

Marli Schroeder, uma catarinense que se mudou para o Amazonas há 19 anos, quando a rodovia já tinha sido fechada, admite que a esperança é renovada todos os anos.

"Seria bom, né? A gente poderia chegar em Humaitá em duas horas e meia. Hoje, se saímos cedinho, só chegamos lá às 17h", afirma.

A família Schroeder é mais conhecida na região como "catarinos". Todos louros e de olhos azuis, a aparência destoa da população amazônica.

Fibra
Mas o que mais chama a atenção nos "catarinos" é a fibra de se manter praticamente na fronteira selvagem durante tanto tempo.

"Meu marido sempre quis ser fazendeiro, mas não tinha mais terra para comprar lá no sul, então viemos para cá", conta Marli Schroeder.

Passados quase vinte anos, a fazenda prosperou. Eles hoje vendem gado para corte em Humaitá, mas vivem praticamente isolados.

A filha mais velha de Marli, Sara, tem 18 anos e neste ano começou a estudar formalmente pela primeira vez na vida.

"As mães sempre ensinaram os filhos a ler e a escrever, mas não tinha escola."
Graças a um acordo com a Prefeitura de Humaitá, uma professora primária foi enviada para a fazenda dos "catarinos".

De segunda a sexta-feira, ela mora no local e dá aula para as nove crianças que lá vivem.

"Talvez nós tenhamos errado ao insistir em morar aqui. Eu poderia ter ido para a cidade com as crianças para elas irem à escola. Mas nós queríamos dar liberdade para elas aqui", reflete Marli Schroeder.

Grilagem
A reabertura da BR-319 poderia ajudar os "catarinos" a correrem atrás do tempo perdido.

Marli Schroeder diz estar preocupada com a possibilidade de desmatamento que o recapeamento da rodovia pode trazer - "a gente tem filho, né", resume.

Para ela, se as autoridades quiserem, podem evitar as derrubadas.

O maior medo dela são os grileiros que costumam ser atraídos por novas estradas.

"Ouvi dizerem que aqui tinha muita grilagem e até matança por causa de terra. Disso tenho medo."

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