Raúl Castro consolida nova política externa cubana com viagem ao Brasil

Havana, 20 dez (EFE) - Três cúpulas e duas visitas oficiais em sua primeira viagem ao exterior serviram ao presidente Raúl Castro para consolidar sua figura fora de Cuba, estabelecer as linhas de sua política externa e reconfigurar a imagem da ilha sem o chefe da revolução, Fidel Castro.

EFE |

O jornal "Granma", o oficial do Partido Comunista de Cuba, dita hoje o veredicto da viagem à Venezuela e ao Brasil que Castro começou em 13 de dezembro e que terminou nesta sexta, ao afirmar: "se algo ficou evidente em todas as partes é a solidez da Direção da Revolução e sua carga de liderança".

Raúl Castro voltou a Cuba com sucessos, como a reinserção da ilha no panorama latino-americano com sua entrada no Grupo do Rio e o pedido quase unânime da região ao novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para que coloque ponto final ao embargo que o país mantém contra Cuba desde 1962.

Além disso, o general fixou as bases de uma nova política externa de Cuba que tenta desfazer o esquema de dependência que, nos últimos anos, atou o país à Venezuela, apostando na diversificação de suas relações e dando preferência aos laços sul-sul.

Raúl Castro afirmou claramente que um eventual diálogo com Obama, em igualdade de condições, sem "gestos unilaterais" e com todas as nuances que queiram acrescentar, faz parte de sua agenda, algo que sempre foi objeto de controvérsia na ilha devido à posição não tão favorável do ex-presidente Fidel Castro.

O presidente cubano fez isso assumindo em primeira pessoa essa posição e depois que o líder cubano disse que, "com Obama, pode-se conversar onde quiser" em um novo artigo.

O presidente cubano trouxe o compromisso dos presidentes de Equador, Rafael Correa; Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, e Chile, Michelle Bachelet, de visitar a ilha em janeiro.

"Acho que foi um sucesso de política externa", afirmou um analista americano consultado pela Agência Efe, ao destacar a "reinserção em termos muito favoráveis" de Cuba no contexto latino-americano de maneira coincidente "com a nova visão de política externa cubana".

Em sua opinião, com as visitas oficiais à Venezuela e ao Brasil, e a participação de Raúl Castro nas Cúpulas do Mercosul, Grupo do Rio e da América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento, "fecha-se um ciclo" em Cuba.

Para o analista, em termos de imagem, Raúl Castro "se cuidou" e, "em cada ocasião que tinha, lembrava de Fidel, houve uma invocação permanente do irmão", algo que, para ele, "é o mesmo que estivemos vendo há dois anos aqui: uma transição que tem que ser feita com muito cuidado".

No entanto, criticou a forma como Raúl Castro apresentou a proposta a Obama de trocar os presos políticos em Cuba por cinco agentes cubanos detidos em 1998 nos Estados Unidos e condenados por conspirar para espionar, após um processo cheio de incidentes.

"Se querem os dissidentes, os mandaremos amanhã, com família e tudo, mas que nos devolvam nossos cinco heróis", disse Raúl Castro.

"Esse é um mecanismo da Guerra Fria, isso se entendia em outras épocas", acrescentou.

Um observador indicou à Efe que as palavras de Raúl Castro evidenciam que "a posição com os Estados Unidos está se alterando", ao ressaltar que o presidente cubano "não teria falado de forma tão explicita se não estivesse bem respaldado".

Nesse sentido, lembrou que, na sexta-feira passada, o "Granma" publicou um artigo sob o título "Embargo sem futuro, Cuba pronta para diálogo de iguais, Raúl Castro", algo, considerou, "sem precedentes".

"Ele deu passos políticos muito importantes e era necessário um respaldo oficial à sua política", indicou, em alusão à cobertura do "Granma", que hoje, assim como fez a televisão cubana, divulgou textualmente a resposta de Raúl Castro sobre os dissidentes.

"Em um país onde as palavras pesam como o chumbo, alguém sem um forte respaldo não diz o que Raúl disse", acrescentou. EFE jlp/db

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