Ratko Mladic está apto para ser julgado em Haia, diz Sérvia

Defesa alegou que saúde de ex-comandante impedia extradição; segundo filho, ele teve dois derrames e se declarará inocente

iG São Paulo |

O ex-comandante do Exército servo-bósnio Ratko Mladic pode ser extraditado para o tribunal de crimes de guerra da ONU em Haia, Holanda, apesar das alegações de sua defesa de que está muito doente para enfrentar um julgamento, decidiu nesta sexta-feira uma corte de Belgrado.

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Foto fornecida pelo jornal Politika do ex-comandante do Exército servo-bósnio Ratko Mladic, que foi preso em 26/05/2011

Um advogado disse que Mladic entraria com uma apelação contra a decisão na segunda-feira. Se a apelação foi rejeitada, o ex-fugitivo poderia ser extraditado em poucas horas. Segundo seu filho Darko, que o visitou na prisão, se for extraditado seu pai declarará ser inocente das acusações de crimes de guerra, incluindo orquestrar algumas das piores atrocidades da Guerra da Bósnia (1992-1995), conflito que deixou mais de 100 mil mortos e expulsou outro 1,8 milhão de suas casas. Milhares de muçulmanos e croatas foram mortos, torturados ou desalojados para "limpar" a região de não sérvios.

A porta-voz judicial Maja Kovacevic disse que Mladic rejeitou aceitar o indiciamento de Haia durante a audiência de extradição desta sexta-feira. "Ele tem várias doenças crônicas, mas está em condições de ser julgado", disse. De acordo com o filho, Mladic, de 69 anos, sofreu dois derrames durante os 16 anos em que esteve foragido, tem o braço direito parcialmente paralisado e mal consegue falar.

O ex-comandante foi encontrado em um vilarejo no norte da Sérvia , onde vinha vivendo com nome falso. Ele é acusado por crimes de guerra e genocídio durante a Guerra da Bósnia, quando comandava o Exército do líder servo-bósnio Radovan Karadzic. Entre as acusações está a de ter ordenado e coordenado o massacre de até 8 mil meninos e homens muçulmanos na cidade de Srebrenica , em 1995 - maior atrocidade cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

Derrame

A primeira audiência na corte de Belgrado, na quinta-feira, foi interrompida para que Mladic passasse por um exame clínico. Imagens da TV sérvia mostraram o general entrando na corte, andando lentamente e usando um boné.

O advogado de Mladic, Milos Saljic, disse que o juiz tentou questionar o general, mas ele estava "em condições físicas e psicológicas complicadas" e incapaz de se comunicar. Segundo Saljic, seu cliente necessita de tratamento médico e "não deveria ser transportado em tal estado".

Mladic se tornou o mais procurado acusado por crimes de guerra na Bósnia após a prisão de Radovan Karadzic em 2008. Segundo relatos na mídia sérvia, um dos braços de Mladic estaria paralisado, possivelmente em consequência de um derrame.

"Ele tem consciência de que está preso, sabe onde está, e diz que não reconhece o tribunal de Haia", afirmou o advogado. O promotor Bruno Vekaric reconheceu que Mladic está tomando vários remédios, mas disse que ele "respondeu muito racionalmente a tudo o que está acontecendo".

Pressão

A Sérvia estava sob intensa pressão internacional para prender Mladic e enviá-lo ao tribunal da ONU para crimes de guerra da ex-Iugoslávia, em Haia. O correpondente da BBC em Belgrado Mark Lowen observa que o governo do presidente sérvio, Boris Tadic, deseja agora que Mladic seja extraditado rapidamente, esperando que sua saída do país evite mais protestos de nacionalistas sérvios que o consideram um herói.

Segundo o presidente sérvio, a prisão de Mladic levou a região e o país para mais perto da reconciliação, e abriu as portas para que a Sérvia se torne país-membro da União Europeia .

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Foto divulgada pelo governo sérvio mostra Ratko Mladic, ex-comandante do Exército servo-bósnio, comparecendo à corte de Justiça em Belgrado (26/05/2011)
Tadic rejeitou críticas de que a Sérvia só tomou alguma atitude a respeito da captura de Mladic após enfrentar intensa pressão internacional. "Vínhamos cooperando com Haia (o tribunal) por completo desde o começo do mandato deste governo", disse.

Uma porta-voz de familiares das vítimas do massacre de Srebrenica, Hajra Catic, disse à agência AFP que "após 16 anos de espera, para nós, familiares das vítimas, isso é um alívio". A notícia da captura também foi elogiada por representantes de vários governos, incluindo EUA e Grã-Bretanha, além da ONU, União Europeia, Otan e da ONG Anistia Internacional.

Sem disfarce

Mladic foi capturado na Província de Vojvodina, no começo da quinta-feira, segundo o ministro da Justiça sérvio, Slobodan Homan. Fontes de segurança sérvias disseram que três unidades especiais invadiram uma casa perto do vilarejo de Lazarevo, a cerca de 80 quilômetros de Belgrado. A casa era de um parente de Mladic, e estava sob vigilância havia duas semanas. Mladic estava usando o nome Milorad Komodic.

A rádio sérvia B-92 dise que ele não estava disfarçado - ao contrário de Karadzic, que usava uma longa barba e um rabo de cavalo quando foi capturado em Belgrado, há três anos. O promotor-chefe do tribunal de crimes de guerra da ONU Serge Brammertz comemorou a prisão, dizendo: "Os acontecimentos de hoje mostram que pessoas responsáveis por graves violações da lei humanitária internacional não podem confiar na impunidade."

Importância

O correspondente da BBC em Belgrado Mark Lowen diz que a prisão é incrivelmente importante para os sérvios, já que "muitos sentiam que o destino de seu país estava refém de Mladic e a esperança de ingressar na União Europeia era nula enquanto ele estivesse foragido".

Depois de viver em liberdade em Belgrado por algum tempo, Mladic desapareceu quando o ex-presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic foi preso, em 2001.

Em 2005, o então ministro do Exterior sérvio, Vuk Draskovic, acusou o serviço secreto do país de saber o paradeiro de Mladic, alegação negada pela agência de inteligência. A especulação sobre uma prisão iminente de Mladic aumentou quando Karadzic foi capturado em Belgrado, em julho de 2008. Em 2010, a Sérvia ofereceu uma recompensa de 10 milhões de euros (pouco menos de R$ 23 milhões) por informações que levassem à captura do militar.

*Com AP e BBC

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