O presidente equatoriano Rafael Correa conseguiu fazer com que fosse adotada a Constituição de cunho socialista que ele defendia, mas os resultados da votação do referendo em Guayaquil (sudoeste), baluarte da oposição, poderão precipitar o surgimento de um foco de resistência, como ocorre atualmente na Bolívia.

Se o 'sim' foi amplamente apoiado em nível nacional (64% dos votos) no referendo constitucional de domingo, foi o "não" que venceu em Guayaquil, com 47% dos votos, contra 45,7% para o "sim", conforme anunciou o Supremo Tribunal Eleitoral.

Essa grande cidade portuária situada a 280 km de Quito não pode deixar Rafael Correa indiferente, mesmo que ele tenha comemorado, desde o fechamento dos centros de votação no domingo, a derrota da oposição.

Pulmão econômico do país, esta é a cidade mais populosa com 2,4 milhões de habitantes e também a que conta com o maior número de eleitores (1,6 milhão, para 9,7 milhões de equatorianos habilitados a votar).

Apesar de negar que vá se voltar para o separatismo, o prefeito da cidade, Jaime Nebot, afirma que continuará defendendo a autonomia de Guayaquil.

"Aqui a única pessoa que pensa em separatismo é o presidente Rafael Correa e seu amigo (o presidente Hugo) Chávez. Aqui, em Guayaquil, isso não existe", afirmou Nebot.

Centro conservador do país, cuja figura proeminente é seu prefeito, e centro empresarial, Guayaquil quer um estatuto de autonomia, enquanto que a Constituição, que entrará em vigor em breve, reforça a centralização e encarrega o Estado da tarefa de planejar a economia.

"O Equador é um país muito interessante porque, mais do que qualquer outro na América Latina, ele tem governos muito eficazes em nível local. Essa Constituição tem como objetivo a centralização do poder e, evidentemente isso vai suscitar resistências locais", explica Michael Shifter, especialista em países andinos do instituto de estudos Diálogo Interamericano, em Washington.

Antes do Equador, na Bolívia, os governadores de cinco departamentos, rejeitaram um projeto de constituição governamental que consideravam estatizante demais e indigenista.

Em setembro, depois de oito meses de bloqueio das negociações entre o governo e esses departamentos autonomistas, a crise atingiu o auge com os episódios de violência que deixaram 19 mortos.

Adrian Bonilla, cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais de Quito, considera entretanto que Rafael Correa mantém uma margem de manobra porque "os resultados permitem ao presidente estar em boa posição para negociar". Haverá resistência, "mas ela será pacífica, civilizada, democrática", prometeu o opositor Jaime Nebot.

Mas, ainda ambíguo, alertou seu rival de que deveria rever "seu" modelo, porque, em caso contrário, ele "reagirá".

Nos próximos meses, a eventual resistência dos empresários de Guayaquil poderá ainda ser expressada nas urnas: uma vez que a Constituição entre oficialmente em vigor, a Assembléia Constituinte nomeará uma comissão eleitoral encarregada de organizar as eleições gerais -- parlamentares e presidencial -- antes de fevereiro de 2009.

Com uma vitória do "Sim" em nível nacional (64% dos votos favoráveis) Rafael Correa, cujo discurso socialista arrebatou um país onde 50% dos habitantes vivem abaixo da linha da pobreza, ficará em boa posição para a próxima votação, analisa Michael Shifter.

Mais tarde ele enfrentará "um período difícil": "terá que enfrentar a problemas econômicos e eventuais divisões dentro do partido" Alianza Pais, máquina de guerra eleitoral a seu serviço.

"Nesse momento ele terá que conseguir resultados. Não será mais uma campanha eleitoral, mesmo que ele adore estar em campanha. Ele terá que governar e as pessoas esperam muito", concluiu.

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