Radovan Karadziv vivia e trabalhava na Sérvia com identidade falsa

Snezana Stanojevic Belgrado, 22 jul (EFE).- O suposto criminoso de guerra servo-bósnio Radovan Karadzic, preso na noite da última segunda na Sérvia, vivia e trabalhava com identidade falsa em Belgrado, onde se dedicava à medicina alternativa, informaram autoridades sérvias.

EFE |

Karadzic, de 63 anos, foi detido na noite passada em um ônibus "nas proximidades de Belgrado enquanto seguia de um ponto para o outro", declarou em entrevista coletiva o responsável sérvio pela cooperação com o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), Rasim Ljajic.

A operação começou na tarde de ontem depois de um grupo de pessoas, que supostamente faziam parte de uma rede de apoio a Karadzic, ser perseguido por um tempo.

Ljajic se negou a revelar mais detalhes sobre a detenção por afirmar que as informações operacionais podem ser usadas futuramente para a captura dos outros dois acusados ainda foragidos da Justiça internacional, Ratko Mladic e Goran Hadzic.

Karadzic se escondia sob identidade falsa, usando documentos em nome de Dragan Dabic, e trabalhava em um consultório particular, no qual se dedicava à medicina alternativa no município de Nova Belgrado.

O promotor sérvio responsável por coordenar o "plano de ação" de captura dos acusados de crimes de guerra, Vladimir Vukcevic, explicou na mesma entrevista coletiva que Karadzic "foi tão convincente com sua falsa identidade que se movimentava com liberdade pela cidade, chegando a aparecer em locais públicos".

"É fato que nem as (pessoas) do consultório em que trabalhava nem as que alugavam o apartamento para ele sabiam de quem se tratava", declarou Vukcevic, que também disse que as autoridades sérvias não tiveram ajuda de serviços secretos estrangeiros na operação de perseguição e captura de Karadzic.

"Atuamos sozinhos, sem a ajuda de fora", confirmou o promotor.

Vukcevik anunciou também que o procedimento legal para a extradição de Karadzic para o TPII começou com o interrogatório do preso esta madrugada por um juiz de instrução e explicou que o processo poderia durar até nove dias.

Já Ljajic destacou que "há determinação absoluta" das autoridades da Sérvia para completar a cooperação com o TPII e que este "caso mostrou que não se escolhe lugar, tempo nem qual acusado será detido e extraditado".

Ele lembrou que as pressões internacionais sobre a Sérvia estavam centradas, antes de tudo, na detenção de Mladic, ex-comandante militar servo-bósnio que, segundo a promotoria do TPII, se esconde na Sérvia.

"Poucos esperavam que isto acontecesse com Karadzic", mas as atividades operacionais realizadas o localizaram e detiveram, declarou.

Na entrevista coletiva, foi mostrada uma foto do ex-presidente servo-bósnio na qual ele é visto com uma longa barba branca, cabelo esbranquiçado, óculos e um pouco mais magro do que em suas últimas aparições públicas.

A captura e extradição dos acusados pelo TPII é a condição crucial apresentada à Sérvia em seu processo de aproximação com a União Européia (UE).

Em Belgrado, o Ministério do Interior informou hoje que a situação da segurança está sob controle, mas em estado de alerta.

Na noite passada dois grupos de ultranacionalistas de cerca de 10 a 15 pessoas se reuniram diante do edifício da sala especial de crimes de guerra do Tribunal de Belgrado, onde Karadzic foi interrogado. Porém, não foi registrado nenhum incidente.

Os cidadãos da capital comentam de diferentes formas a detenção de Karadzic - apoiada por alguns, criticadas por outros -, mas preferem não revelar sua identidade à imprensa.

"Foi uma surpresa, pois ninguém achava que Karadzic estava na Sérvia. Não se falava dele havia muito tempo. Muito menos que levava uma vida normal, se assim pode ser chamada (a vida que vivia)", declarou à Agência Efe um homem de aproximadamente 50 anos.

Um taxista disse que "isto possivelmente será bom para a Sérvia", mas afirmou que quando lembra que "há tantos criminosos nazistas da Segunda Guerra Mundial ainda em liberdade com 90 anos" pensa que, na "realidade, não há justiça".

Alguns idosos criticaram a detenção de Karadzic ao assegurarem que "para os sérvios não há justiça em Haia" e não vêem como positiva sua extradição.

Karadzic, de 63 anos, é acusado de genocídio no massacre de cerca de oito mil homens muçulmanos em Srebrenica, em julho de 1995, quando as tropas servo-bósnias conquistaram a região, então protegida pela ONU.

É acusado também de crimes de guerra durante a operação militar em Sarajevo das tropas servo-bósnias na guerra (1992-1995).

Além disso, é acusado de usar 284 soldados das forças da ONU (Unprofor) como escudo humano quando o Exército servo-bósnio temia, em maio e junho de 1995, a intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra suas posições. EFE sn/fh/fal

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