Radiação em subsolo de usina no Japão está 10 mil vezes o normal

Informação sobre radioatividade em água de túnel surge enquanto governo descarta aumentar área de isolamento ao redor de Fukushima

iG São Paulo |

A radiação na água de um túnel subterrâneo do lado de fora do edifício da turbina do reator número 2 no complexo nuclear danificado do Japão estava mais de 10 mil vezes acima do índice normal registrado dentro dos reatores, disse a Tokyo Electric Power (Tepco - operadora da usina), segundo a agência de notícias Kyodo nesta quinta-feira.

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Caminhonetes dirigem em estrada na qual se vê, ao fundo, a usina nuclear de Fukushima, no Japão

A operadora também detectou radiação em água de superfície próximo ao edifício da turbina no reator número 1 da usina Fukushima Daiichi, acrescentou a Kyodo. E um índice anormal de césio radioativo foi encontrado em carne oriunda da área, informou.

Iodo radioativo foi descoberto num lençol d'água situado a 15 metros sob a central nuclear. Mostra de água retirada na quarta-feira às 11h10 (23h10 de Brasília) sob o reator 1 da central revelou uma taxa de 430 becqueréis por cm3, disse um porta-voz da empresa, afirmando que esse nível era "10 mil vezes superior" à norma legal.

As informações foram divulgadas enquanto as autoridades japonesas anunciaram nesta quinta-feira que por enquanto não consideram ampliar o perímetro de isolamento de 20 km em torno da central nuclear de Fukushima. O anúncio foi feito pelo porta-voz do governo, Yukio Edano, após a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ter recomendado a medida ao constatar níveis de radiação elevados a 40 km de distância.

"A AIEA nos informou que o nível de radiação no solo supera os limites previstos por ela e nos pediu para acompanhar de perto a situação com base nessas informações", declarou Edano.

Ele, porém, disse que os dados da AIEA serão levados em conta, mas insistiu que por enquanto os níveis não representam um risco "imediato" à saúde. "Vamos seguir controlando o nível de radiação com maior atenção e temos a intenção de adotar medidas caso seja necessário."

A AIEA advertiu na quarta-feira que os níveis de radiação medidos na aldeia de Iitate, com 7 mil habitantes e a 40 km da central de Fukushima, superam os níveis recomendados e "justificam uma retirada".

Os analistas da AIEA disseram que os níveis de contaminação na localidade são o dobro do permitido, embora tenham admitido que há possíveis variáveis sobre as medições realizadas.

Segundo Edano, o organismo teve como base a contaminação detectada na terra, enquanto o governo japonês considera que, em função das medições de radiação atmosférica, a situação não representa um risco imediato à saúde. "Se a situação continuar e forem causados riscos para a saúde, tomaremos medidas", afirmou o porta-voz, antes de garantir que a eventual resposta do governo "não chegará tarde".

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, pediu regras internacionais de segurança nuclear mais claras, diante da atual crise na usina nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão. Em visita ao país, ele propôs que as autoridades em segurança nuclear dos países do G-20 discutam o assunto em encontro em maio.

Sarkozy – o primeiro líder estrangeiro a visitar o Japão desde o terremoto – disse que há urgência em estabelecer regras globais para o tema porque “o mundo é uma aldeia e o que acontece no Japão pode ter consequência em outros lugares”. A França tem o segundo maior número de usinas nucleares em funcionamento do mundo, que produzem 80% de sua eletricidade. O país prometeu oferecer sua tecnologia para ajudar o Japão no conserto da planta de Fukushima e no controle dos níveis de radiação.

Isolamento

As autoridades japonesas mantêm a retirada em um raio de 20 quilômetros ao redor da usina, embora tenha sido recomendado que os moradores da região entre 20 km e 30 km deixem suas casas de forma voluntária.

Mais de 200 mil pessoas foram retiradas dos arredores da usina nos dias posteriores ao terremoto e o posterior tsunami de 11 de março, que danificaram o sistema de resfriamento da central de Fukushima. A ampliação do raio de retirada também foi solicitada por analistas de organizações como o Greenpeace, que na quarta-feira advertiu sobre os altos níveis de radioatividade registrados na localidade de Iitate.

Segundo os analistas enviados ao terreno pela organização ambientalista, no domingo a radiação oscilava entre 7 e 10 microsievert por hora no povoado, enquanto o limite seguro é estabelecido em 1 mil microsievert por ano.

Futuro da usina

Em meio ao aumento de pressão para ampliar o perímetro de segurança ao redor de Fukushima, o secretário do Partido Comunista japonês, Kazuo Shii, anunciou que o primeiro-ministro Naoto Kan afirmou nesta quinta-feira que a central deve ser desmantelada.

A Tokyo Electric Power (Tepco), operadora e proprietária da central Fukushima Daiichi, considera que será inevitável desmantelar os quatro primeiros reatores da usina , após as difíceis operações de resfriamento que podem durar meses.

Esses reatores sofreram graves danos após o terremoto e tsunami de 11 de março, mas o presidente de honra da Tepco, Tsunehisa Katsumata, deu a entender na quarta-feira que os reatores 5 e 6, que não sofreram danos, poderiam ser conservados.

A radioatividade, no entanto, afeta cada vez mais a região nordeste do Japão. Mostras de água do mar recolhidas 300 metros ao sul da central tinham um nível de iodo radioativo 4.385 vezes superior ao tolerado, segundo a Tepco.

AP
Prédios em ruínas são vistos em Onagawa, Província de Miyagi, que foi devastada por terremoto seguido de tsunami em 11 de março no Japão
A medição desta quinta é superior ao resultado obtido na véspera, quando o nível de iodo radioativo foi 3.355 vezes superior ao normal na água do mar recolhida na mesma zona. O problema é provocado, provavelmente, porque a água utilizada para resfriar os reatores nucleares vazou para o mar.

Resgate de corpos

Por causa do temor dos efeitos da radiação, cerca de 1 mil corpos não podem ser resgatados dentro da zona de isolamento de 20 quilômetros ao redor da usina, disseram fontes da polícia japonesa nesta quinta-feira.

As autoridades revelaram que alguns corpos "foram expostos a altos níveis de radiação", como no caso de uma vítima encontrada na localidade de Okuma, na Província de Fukushima, a cerca de cinco quilômetros da usina nuclear. No dia 27, as autoridades desistiram de recuperar o corpo, segundo a agência local "Kyodo".

Os especialistas tentam encontrar a forma de resgatar os corpos dentro da zona de retirada sem expor a altos níveis de radiação as equipes de emergência, os legistas e os parentes no processo de identificação.

Foi considerada a possibilidade de examinar a radioatividade dos corpos antes de transferi-los para fora da zona de 20 quilômetros, embora exista perigo para as equipes de busca, que não podem passar muito tempo na área e devem trabalhar vestidos com trajes especiais.

Além disso, os mortos dentro dessa zona de retirada não podem ser submetidos à cremação, como é costume no Japão, pois se teme que o processo possa liberar gases radioativos.

Também não se considera totalmente seguro enterrar os corpos, pois eles poderiam contaminar o terreno, segundo as fontes da polícia consultadas pela "Kyodo". A tragédia dos habitantes dessa área, que foram forçados a abandonar seus lares pelos vazamentos de radiação da usina, aumenta com a dificuldade de conhecer o paradeiro dos desaparecidos.

AP
Com roupa que protege contra radiação, polícia japonesa procura desaparecidos no terremoto seguido de tsunami em Minamisoma, em Fukushima, Japão
*Com Reuters, EFE, BBC e AFP

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