Harare, 19 dez (EFE).- O Zimbábue é meu, declarou hoje seu presidente, Robert Mugabe, em discurso no qual chamou seu primeiro-ministro designado, o opositor Morgan Tsvangirai, de um testa-de-ferro do Ocidente.

"O Zimbábue nunca se renderá", disse Mugabe, em seu discurso de inauguração da conferência anual da União Africana Nacional do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF).

O partido governamental antecipa sua reunião anual, que reúne cerca de 6 mil delegados, apesar de o Zimbábue sofrer o pior surto de cólera de sua história, que já matou 1.123 pessoas, dentre 20.896 vítimas registradas, segundo os últimos números divulgados pela ONU.

Vestido com um jaqueta de cor verde e um boné de beisebol, Mugabe disse que Tsvangirai, líder do opositor Movimento para a Mudança Democrática (MDC), é "digno de lástima".

"Ele (Tsvangirai) já não tem controle nem de si mesmo. Isto é o que acontece quando alguém se transforma em uma marionete", disse Mugabe de seu rival.

DE acordo com os termos de um acordo para compartilhar o poder em setembro entre a Zanu-PF e o MDC, Tsvangirai foi designado primeiro-ministro de um Governo de unidade no qual Mugabe continuaria sendo presidente e que, segundo se disse então, poderia tirar o Zimbábue de sua grave crise política, econômica e humanitária.

O acordo está a ponto de cair, porque Mugabe pretende monopolizar para a Zanu-PF todos os ministérios principais deixando ao MDC em um papel de sócio minoritário.

Tsvangirai advertiu hoje que seu partido suspenderá as negociações com a Zanu-PF se o Governo continua reprimindo a oposição política e os ativistas de direitos humanos do Zimbábue.

Em entrevista coletiva em Gaborone, capital de Botsuana, Tsvangirai disse que 42 militantes do MDC foram seqüestrados.

"Se os seqüestros não cessarem imediatamente e se todos os desaparecidos não forem libertados ou levados a um tribunal de Justiça até 1º de janeiro de 2009, solicitarei ao Conselho Nacional do MDC que aprove uma resolução para suspender todas as negociações e contatos com a Zanu-PF", disse Tsvangirai.

Tsvangirai foi criticado sistematicamente por cada um dos oradores na abertura da conferência da Zanu-PF, na qual os delegados agitavam bandeiras e ovacionavam Mugabe.

"O verdadeiro inimigo é Tsvangirai. Foi ele quem criou este sofrimento", afirmou o governador da província de Mashonalândia Central Martin Dinha.

A crise zimbabuana levou as potências ocidentais e alguns países africanos a pedir uma intervenção estrangeira no Zimbábue, em outros tempos considerado o "Celeiro da África" e um exemplo de estabilidade após a guerra de independência.

Os organizadores da conferência da Zanu-PF tomaram precauções especiais para evitar contágios do cólera durante o encontro.

Médicos voluntários estão de prontidão no local pela possibilidade de que alguém contraia a doença, enquanto os delegados, aos quais se fornecem água engarrafada, estão proibidos de levar comida à conferência.

Em contraste com as penúrias que sofrem os zimbabuanos comuns para conseguir comida devido ao desabastecimento, os delegados da conferência da Zanu-PF foram recebidos com banquetes providenciados por seus dirigentes, que doaram mais de 100 vacas, como assim também dezenas de cabras, porcos e galinhas para alimentá-los.

O leite que recebem os delegados foi doado pela fazenda da Primeira-Dama, Grace Mugabe.

Durante seu discurso, que durou mais de duas horas, Mugabe assegurou que "o Zimbábue nunca virá abaixo" e desafiou as que tachou de "nações hostis africanas" a invadir seu território.

"Que países africanos terão a coragem de ordenar uma intervenção militar no Zimbábue?", perguntou o chefe de Estado zimbabuano, afirmando que "o único com poder de destituir Robert Gabriel Mugabe é o povo zimbabuano".

O idoso presidente, de 84 anos, quem mantém o poder desde a independência do Zimbábue em 1980, reiterou que "a crise neste país foi exagerada pelo Reino Unido, que quer se apoderar novamente de nossos recursos".

"Esta é uma guerra, camaradas e amigos, por nossos recursos, mas nunca venderei meu país, nunca entregarei ao Zimbábue. O Zimbábue é meu", concluiu Mugabe.

A conferência anual da Zanu-PF acontece na Universidade de Ciência e Tecnologia de Bindura, cidade ao norte da capital Harare, sob o lema: "Unidos em defesa do partido e da revolução".

O status de "Celeiro de África" do Zimbábue despencou depois que, em 2000, Mugabe forçou uma reforma agrária de cunho racial, tomando à força as terras dos fazendeiros brancos do país.

Depois disso, o Zimbábue entrou em crise de desabastecimento, que ajudou a levar a inflação deste ano à impressionante marca de 231.000.000%, forçando o governo a cortar dez zeros da moeda local, o dólar zimbabuano, porque as calculadoras já não podiam mais fazer contas que chegavam aos trilhões. EFE rt/jp

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