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Tirofijo , de camponês a criador de uma das guerrilhas mais antigas do mundo

Bogotá, 24 mai (EFE).- Pedro Antonio Marín, conhecido como Manuel Marulanda Vélez ou Tirofijo, cuja morte foi anunciada hoje pelo ministro da Defesa colombiano, foi agricultor, açougueiro, lenhador e padeiro antes de fundar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha mais ativa e antiga da América, com mais de quatro décadas de existência.

EFE |

O ministro Juan Manuel Santos revelou em uma entrevista à revista "Semana" que o antigo guerrilheiro morreu no dia 26 de março deste ano, segundo uma informação recebida por uma fonte que, segundo ele, "nunca falhou".

No entanto, o titular de Interior e Justiça, Carlos Holguín, destacou hoje que a morte ainda não foi confirmada.

"Tirofijo", nascido em Gênova, no centro oeste da Colômbia, em maio de 1930, foi dado como morto em várias ocasiões, a primeira delas em 1951.

"Marulanda" passará para a história como "o guerrilheiro mais velho do mundo" e o fundador das Farc.

A vida do líder rebelde ficou profundamente marcada pelo assassinato, em 9 de abril de 1948, do líder do Partido Liberal Jorge Eliécer Gaitán, que marcou o início de uma época sangrenta que se estendeu durante várias décadas na Colômbia.

Segundo alguns de seus biógrafos, o velho guerrilheiro ganhou seu apelido de "Tirofijo" devido a sua boa pontaria.

Pedro Antonio Marín era, segundo uma ficha de sua biografia da biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá, "um lenhador de filiação liberal" que depois do assassinato de Gaitán aprendeu a "carregar uma arma e viver fugindo da Polícia".

Seu "batismo de fogo" como insurgente aconteceu em setembro de 1949, quando em companhia de vários de seus irmãos e primos assaltou sua povoação natal, Gênova, em um ataque frustrado pela Polícia.

Após organizar as autodefesas camponesas em sua região, com tendências comunistas, organizou em 1966 as Farc, com a ajuda do dirigente Luis Alberto Morantes, conhecido como "Jacobo Arenas", um dos ideólogos da guerrilha, já falecido.

Alguns de seus companheiros de armas descreveram "Tirofijo" em várias ocasiões como um "homem desconfiado", apesar de sua aparência de "camponês bonachão".

Com Jacobo Prías Álape, conhecido como "Charro Negro"; María Oviedo, "Mariachi", e Isauro Yosa, conhecido como "Lister", além de "Jacobo Arenas", começou a escrever, depois da metade do século passado, um capítulo especial da política e da violência das últimas décadas na Colômbia, e desde então se tornou um mito popular vivo.

"Surgiam relatos de combates inverossímeis nos quais somente 'Marulanda' lutava contra batalhões inteiros, foram criadas canções sobre sua vida e se especulou sobre pactos com o diabo. Inclusive a imprensa chegou a dar conta de seu enterro, com fotos e tudo, em 1951", destacou o historiador Orlando Villanueva.

Antes da fundação das Farc, em 27 de maio de 1964, a "Operação Marquetalia" do presidente Guillermo León Valencia representou uma gigantesca ação militar para derrotar movimentos de autodefesa do centro oeste e sul do país.

Nesse momento, "Tirofijo" e menos de meia centena de homens resistiram a bombardeios e a um impressionante bloqueio militar.

O dia 27 de maio de 1966 é considerado "o dia do nascimento" das Farc, que desde então se estendeu para boa parte do país.

No entanto, assinalam alguns estudos, "entre 1974 e 1982, o grupo registrou um lento crescimento, que se centrou em zonas camponesas distantes dos grandes centros urbanos".

Durante o Governo de Belisario Betancur (1982-1986), os colombianos "voltaram a ver a cara" de "Tirofijo", depois que muitos acreditavam que ele estava morto.

Betancur tentou, sem sucesso, um processo de paz com as Farc e tornaram-se famosas as visitas de distintas personalidades à "Casa Verde", o emblemático quartel-general do comando central da guerrilha em um lugar escondido das montanhas de La Uribe, vizinhas aos Llanos Orientales.

Depois desse processo fracassado, as Farc se estenderam a outras zonas da selva, e nas décadas dos anos 80 e 90 aumentaram seus ataques, intensificaram os seqüestros e envolveram-se com o narcotráfico.

Também começaram os seqüestros maciços de soldados e policiais, assim como ataques a guarnições e povoados, além de atentados a políticos.

"Manuel Marulanda" sugeriu a "troca" desses seqüestrados ou "prisioneiros de guerra" por seus guerrilheiros presos.

Durante o Governo de Andrés Pastrana (1998-2002), a figura do velho guerrilheiro se tornou familiar. Apesar de demonstrar certa timidez, se fez fotografar com muita personalidade quando visitou a zona neutra que foi sede dos diálogos no sul do país.

Pastrana se reuniu durante esse processo em várias ocasiões com "Tirofijo", mas a ausência do líder rebelde - que abandonou a cadeira no início das conversas formais e perante centenas de convidados - sugeriu o fracasso das negociações.

Segundo as Farc, "não haviam condições de segurança" para seu máximo comandante.

Sua presença, no entanto, foi notória em muitas ocasiões durante o mesmo processo, até pouco antes de sua ruptura, em fevereiro de 2002.

"Marulanda", que possui mais de uma centena de ordens de prisão, teve várias mulheres e pelo menos sete filhos reconhecidos, entre eles Olga Marín.

Marín foi uma das porta-vozes das Farc e companheira sentimental do "número dois" dessa guerrilha, Luis Edgar Devia, conhecido como "Raúl Reyes", morto no dia 1º de março deste ano em território equatoriano em uma operação lançada por tropas colombianas. EFE rrm/fb

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