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Temos a sensação de que o mundo se esqueceu do Haiti , diz brasileiro no país

PORTO PRÍNCIPE - Com anos de experiência em pesquisa em áreas de conflito e pós-conflito no Caribe e na África, o professor Omar Ribeiro Thomaz, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade de Campinas, estava na capital do Haiti, Porto Príncipe, quando um devastador terremoto atingiu o país na terça-feira.

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Thomaz realiza pesquisa de campo no país desde 31 de dezembro, quando foi ao Haiti acompanhado dos estudantes de graduação Marcos Pedro Magalhães Rosa, Daniel Felipe Quaresma dos Santos, Otávio Calegari Jorge, Diego Nespolon Bertazolli, Rodrigo Charafeddine Bulamah e Werner Garbers Elias Pereira, além da mestranda Joanna Da Hora.

Em um blog , o grupo tranquilizou familiares sobre o estado de saúde de todos e relatou a situação de caos que se seguiu ao tremor de 7 graus de magnitude. Por email, o professor Omar Ribeiro Thomas contou mais sobre a experiência no Haiti.

Veja o relato do professor brasileiro:

"Neste fim de tarde do dia 12 de janeiro de 2010, Porto-Príncipe, a capital do Haiti, sofreu um terremoto de dimensões catastróficas. Um fim de tarde como outros, subitamente entrecortado por um antes e um depois. Estávamos diante da livraria Pleiade, a maior de Porto Príncipe, de onde acabávamos de sair quando o mundo ruiu. Corremos para o meio da rua, e a poeira branca subiu e tapou nossos olhos. O tremor não havia acabado e já pessoas corriam pela rua apavoradas, gritando 'Jesus' e 'Bon Dieu', com os braços levantados ao céu.

Casas, prédios e estruturas foram abaixo, devido não só a força do terremoto, mas também à fragilidade das construções da cidade. No centro, ao lado de onde estávamos, um posto de gasolina explodiu.

Pessoas feridas, queimadas, nuas caminhavam e corriam, enquanto procurávamos o caminho de casa, e corpos mortos eram dispostos pela calçada. Um segundo terremoto de menor intensidade provocou mais pânico, e começamos a perceber a dimensão da ruína. Multidões cantavam e bailavam, clamando a Bon Dieu. Nunca me senti tão outro em toda minha vida: quanto mais percebia sua crença vital em deus mais confirmava minha convicção pessoal de sua não existência. Deus seria incompatível com isto daqui. Por que o Haiti?

A cidade parou: entre as casas e muros que ruíram, as estreitas avenidas não permitem o passo de veículos para transportar feridos. A única saída foi caminhar e caminhar, enquanto ainda havia luz, que foi o que fizemos. No caminho, mais mortos, mais feridos. Passamos diante da Université Cristoph - alunos e alunas se aglomeravam diante do prédio que ruíra. Com dificuldade, encontramos o caminho da casa do Viva Rio, que estava em pé.

Ficamos no jardim, e passamos esta noite com um grupo de 20 pessoas no jardim. As pessoas ficaram na rua, e a cada novo tremor, cantam e dançam. As notícias que chegam do centro da cidade são desastrosas. O Palácio Nacional ruiu, assim como a catedral ¿ a bela catedral que ficava ao lado de uma mais antiga, hoje apenas ruínas. O terremoto surpreendeu estudantes em manifestação no Champ de Mars, centro da capital. Prédios da Université d´État ruiram, e fala-se de mil estudantes mortos.

Na subida de Porto Príncipe para a cidade de Pétion Ville, o hotel Montana, um dos hotéis que concentra parte do pessoal civil da Missão das Nações Unidas, veio abaixo. Temos confirmações de que um grande hospital em PétionVille também caiu, assim como escolas, faculdades e igrejas.

A cidade ficou às escura, sem luz, e os saques já começaram. O supermercado da esquina de casa, onde fazíamos compras, veio abaixo, e tentamos juntar água e comida, temo que nos colocamos a disposição daqueles que devem organizar as tarefas de resgate e destribuição de alimentos.

Por aqui, não há Estado, não há ambulâncias, não há nada. As pessoas se aglomeram no meio das ruas, procurando ajudar os feridos e velando seus mortos. Na escuridão, a população canta com as mãos para o alto, e a cada pequeno tremor que se sucede, os lamentos ganham um tom mais e mais lancinante. Neste momento temos a viva sensação de que o mundo efetivamente se esqueceu do Haiti".

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