Sydney (Austrália), 14 fev (EFE).- Mamdouh Habib, um australiano detido por terrorismo no Paquistão e que passou três anos na prisão de Guantánamo sem nenhuma acusação formal, estreou nesta semana em Sydney uma peça de teatro na qual relata sua macabra experiência.

Em "Esperando Mamdouh", o presidiário 661 veste um uniforme laranja igual ao que usou na prisão americana em Cuba e relata em forma de monólogo os interrogatórios, as torturas e o sofrimento de sua longa espera, terminada em 2005 com sua libertação e retorno à Austrália.

A obra é escrita e dirigida pelo ativista em prol dos muçulmanos Kuranda Seyit. A peça de apenas dez minutos conta com a atuação do próprio Habib, que colaborou no roteiro, e de vários de seus familiares, que interpretam a si próprios.

Ela se baseia em parte em "My story: the tale of a terrorist who wasn't", o livro autobiográfico de Habib, no qual dá todo tipo de detalhes sobre o regime de abusos mentais e físicos que sofreu no Paquistão, Egito e Guantánamo.

"Mostro como me trataram, é tudo verdadeiro, ainda que nesta versão tão curta não possamos contar tudo, como as injeções que sofri ou como me torturaram", disse à Agência Efe o antigo preso.

Habib, de origem egípcia, foi detido em outubro de 2001 no Paquistão como suposto membro da Al Qaeda.

Dali foi levado primeiro ao Egito e finalmente ao notório centro de detenção dos Estados Unidos em Cuba, onde denuncia que foi objeto de múltiplas torturas.

Seu caso foi um dos primeiros aos que os EUA aplicou sua então inovadora política de "rendição", pela qual um suspeito de terrorismo é sequestrado de forma clandestina e depois trasladado a uma prisão secreta operada pela CIA em um terceiro país.

"Quero poder dizer como me seqüestraram, como era a vida dentro de Guantánamo e como me tratou o Governo australiano", indicou Habib, que proclama que seu país jamais movimentou um dedo para lhe tirar de trás das grades.

Em sua opinião, Canberra também não se esforçou o suficiente em investigar se foi ou não torturado em Cuba. A Polícia vigiou seus movimentos durante os primeiros meses de sua volta ao país.

"Nunca tentaram me libertar de Guantánamo nem do Egito, por isso não querem me devolver o passaporte e por isso não posso comprovar que me raptaram", afirmou.

Em seu retorno à Austrália em janeiro de 2005, Habib recebeu várias ofertas de estudos internacionais para rodar um filme sobre sua história, mas não pôde sair do país porque precisava de documento de viagem.

Pouco depois conheceu Seyit, que lhe deu a ideia de escrever a peça teatral. Ele também trata do sofrimento de sua família e sobretudo de sua mulher Maha, interpretada no palco pela atriz local de origem árabe Melinda Nassif.

"Como muçulmano que sou quis apoiá-lo. Muitos australianos o veem como um herói, mas há uma minoria que o julgou" como terrorista, explicou o diretor. Seyit gostaria de ampliar a peça para 70 minutos e contratar atores profissionais.

O diretor lembrou que mesmo depois os EUA decidiram libertar Habib após admitir não ter encontrado provas contra ele, as autoridades australianas "nem lhe pediram perdão nem lhe ofereceram compensação alguma".

Habib dedicou os últimos cinco anos a lutar para que se faça justiça e reivindica uma indenização pelos três anos que passou preso sem ter cometido crime algum.

Embora tenha aberto vários processos judiciais, vários deles por difamação contra meios de comunicação, confessou que já não tem muita esperança no sistema legal.

O outro "talibã australiano", David Hicks, foi detido no Afeganistão em 2001 e passou meia década em Guantánamo, mas ele foi acusado, julgado e condenado por terrorismo antes de ser extraditado à Austrália, onde cumpriu a última parte de sua sentença e foi libertado no final de 2007. EFE mg/sa

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