Redação Central, 11 jun (EFE).- Da Grécia ao Brasil, o mito de Orfeu chegou ao cinema há 50 anos pelas mãos do francês Marcel Camus, que decidiu trazer a trama para uma favela carioca - o que não impediu que transbordasse riqueza visual e, principalmente, musical.

Meio século após sua estreia, "Orfeu Negro", versão da trágica história da mitologia grega que conta como Orfeu perde sua amada Eurídice, continua surpreendendo graças a suas cores e a seu ritmo, mesmo quando destila um certo aroma de história em quadrinhos envelhecida.

O que certamente não envelheceu é sua maravilhosa trilha sonora, composta por Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Luiz Bonfá e Antonio Maria, os quais utilizaram um ritmo que começava a ganhar força: a bossa nova.

Canções como "Manhã de Carnaval" e "A Felicidade" se transformaram em sucessos mundiais que divulgaram a mistura de jazz e samba da qual esses compositores foram alguns dos principais criadores.

De forma quase imediata, a bossa nova passou a ser objeto de culto e, neste 50º aniversário da estreia de "Orfeu negro", talvez nem todo mundo lembre do filme, mas sim das melodias que o acompanharam.

Isso porque Camus decidiu que a música seria mais uma protagonista da história e, por isso, desenvolveu a trama no carnaval do Rio, embora evitando em alto grau a real miséria da vida nas favelas.

"A felicidade do pobre parece / a grande ilusão do carnaval / A gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia / de rei ou de pirata ou jardineira / e tudo se acabar na quarta-feira", diz um trecho de "Manhã de Carnaval", em um pensamento presente nos personagens do filme.

Vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1959 e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte, "Orfeu Negro" é sem dúvida a produção de maior destaque da filmografia de Camus, um diretor formado na pintura e na escultura, algo que sempre transpareceu em seus trabalhos cinematográficos.

Em seu filme, Orfeu é um motorista de bonde que toca violão - e não o alaúde da lenda original - e que conhece Eurídice, uma jovem pela qual se apaixona apesar de estar a ponto de se casar com sua namorada, Mira.

Camus decidiu levar a história ao Rio de Janeiro e, como se isso fosse pouco arriscado, utilizou atores amadores, incluindo o protagonista, Breno Mello, que à época era jogador do Fluminense e dividiu a tela com a americana Marpessa Down, que deu vida a Eurídice.

O filme estreou em 12 de junho de 1959 na França e foi um sucesso imediato de público e de crítica, embora vozes discordantes não tenham faltado.

O cineasta francês Jean-Luc Godard não hesitou em chamar o Orfeu de Camus de "uma falsidade total". EFE agf/bba

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