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Foram sete barreiras militares da fronteira até Tegucigalpa , diz repórter da BBC Brasil

Entrar em Honduras revelou-se um mergulho por muito do que a América Latina tem de melhor e de pior: simpatia e corrupção, em meio a cenários impressionantes. Ao final da tarde de segunda-feira estava claro que a repórter da BBC Brasil originalmente designada para fazer a cobertura de Honduras não conseguiria o visto.

BBC Brasil |


Em setembro, o governo interino de Honduras suspendeu a isenção de visto para brasileiros. Foi uma resposta a medida semelhante do lado do Brasil - que protestava, por sua vez, contra a deposição de Manuel Zelaya.

Sendo assim, me preparei para ir ao país, assumindo exclusivamente minha cidadania britânica, sem revelar por aí que venho da terra de Lula, Amorim e Ronaldo. Mas lógico que não seria simples.

Horas antes de embarcar, na madrugada do dia 21 para o 22, soube que os quatro aeroportos do país estavam fechados. Entrada, apenas por fronteiras terrestres. Pedi a remarcação da passagem aérea para San Salvador, capital de El Salvador, em tese pouco menos de 400 km do alvo Tegucigalpa.

Compreensivos, os oficiais de imigração do aeroporto de San Salvador se animaram para me dar dicas de como chegar a Honduras. Me diziam os preços corretos que os táxis deveriam cobrar e chegaram até a me apontar um grupo de jornalistas colombianos que também iria fazer o trajeto. Juntei-me a eles e acertamos um furgão para nos levar.

Com pouco menos de 15 minutos na estrada, vi o primeiro policial que nos parou. Com a expressão universal de quem faz bobagem, o cidadão, quando soube que o carro levava imprensa estrangeira, tentou cobrar US$ 50 de propina. Mal começo.

Mas o mar de verde luxuriante que compôs o cenário salvadorenho que vi, aumentava o prazer. País bastante rural, pontuado por vulcões, vacas tranquilas e camponeses que espalham seus grãos para secar no asfalto da estrada. Nada que indicasse uma crise política no vizinho.

Até chegar à fronteira. Entramos em uma fila quilométrica (calculo uns 3 quilômetros) de caminhões que aguardavam a vez para ingressar em Honduras, na esperança de que a imprensa tivesse privilégios. E tivemos. A oficial de imigração, uma senhora aparentemente na casa dos 50 anos, nos contou como tudo estava um caos e ajudou-nos a improvisar sinais de "Prensa" para colarmos no vidro de nosso carro.


Tropas patrulham ruas de Honduras nesta quarta-feira / AFP

A sensação de bem-estar, no entanto, durou pouco. Foram sete barreiras militares da fronteira até a capital. Soldados armados até os dentes, mal-encarados. Atravessamos a estrada com o patrimônio intacto, com exceção do confisco de uma revista colombiana com Chávez na capa. O soldado havia entrado no veículo e perguntava, bravo, o que levávamos, quem éramos. Quando viu a revista, disse: "E este tipinho aqui. Ele fica, tenho umas perguntas a fazer a ele".

Mas sentíamos sede, porque ninguém tinha moeda hondurenha no bolso e as vendas ocasionais não aceitavam dólares. Pena, porque viajar de carro por mais de sete horas sob um sol de mais de 30 graus é cansativo sem água.

Uma vez na periferia da montanhosa Tegucigalpa, encontrar o caminho se revelou mais difícil do que parecia. As poucas pessoas nas ruas nos indicavam trajetos impossibilitados pelas barricadas policiais. Os policiais nos mandavam para longe de onde queríamos chegar.

Nas imediações do Estádio Nacional, outro ponto de aglomeração de simpatizantes de Zelaya, uma cena curiosa. Ao cair da noite, do lado de um bloqueio feito por civis (com pedras e fogueiras), um grupo de adolescentes jogava bola, indiferentes ao toque de recolher, que poderia lhes render um tiro pela ousadia. Totalmente latino-americano.

A imprensa era um dos únicos grupos com salvo-conduto para circular à noite. Pudemos ver então uma cidade-fantasma, imersa em escuridão, com o silêncio sendo por vezes interrompido por sons de tiros. Os hondurenhos com quem conversei se mostraram, acima de tudo, cansados com uma disputa que enxergam como pessoal entre dois políticos ambiciosos.

"Ponham-los em um ringue para que resolvam tudo e possamos viver normalmente", me disseram. Realmente, mesmo em um pico de crise política, não dá para viver sem bom-humor.

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