Queimadura em afegã revela horror da guerra química

Por Emma Graham-Harrison BAGRAM, Afeganistão (Reuters) - A vida que Razia, de 8 anos, conhecia acabou numa manhã de março, quando um míssil caiu em sua casa, envolvendo sua cabeça e pescoço em chamas químicas. O pai dela diz que o disparo foi feito por tropas ocidentais.

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Agora Razia passa seus dias em um hospital na base militar norte-americana de Bagram, ao norte de Cabul. Suas unhas ainda conservam restos de esmalte vermelho, mas seu rosto é um amontoado quase irreconhecível de tecido queimado, e metade do seu couro cabeludo virou uma cicatriz.

"As crianças me avisavam que eu estava queimando, mas a explosão foi tão forte que por um momento fiquei surdo", contou à Reuters o pai dela, Aziz Rahman. "E aí minha esposa gritou: 'As crianças estão queimando', e ela também estava queimando."

As chamas que consumiram sua família foram alimentadas por um produto químico chamado fósforo branco, que os médicos norte-americanos em Bagram disseram ter sido encontrado no rosto e no pescoço de Razia.

O fósforo branco gera um violento incêndio quando entra em contato com o ar, e pode grudar ou até penetrar na pele enquanto queima. Essa substância não é proibida pelas convenções contra armas químicas, porque pode ser usada legalmente em guerras para gerar luz, criar cortinas de fumaça ou incendiar edifícios.

O coronel Gregory Julian, porta-voz das forças ocidentais no Afeganistão, confirmou que os EUA e a Otan usam essa substância no país "em certas aplicações (...), como incendiário para destruir bunkers e equipamento inimigo (e) para iluminação."

Mas os manuais de treinamento dos EUA dizem que atirar fósforo branco contra pessoas é ilegal. Seu uso em áreas habitadas tem gerado polêmica.

Razia e sua família são as primeiras vítimas civis conhecidas do seu uso no Afeganistão. Rahman perdeu dois filhos no ataque. A menina, que teve queimaduras em 40 por cento do corpo, não quis ser fotografada.

QUEM DISPAROU?

Rahman diz que o projétil caiu na casa após um tiroteio nos arredores, no leste da província de Kapisa, onde existe um contingente da Otan formado majoritariamente por franceses, com apoio dos EUA.

"As tropas estavam na estrada, os talibans estavam na montanha, e nós estávamos na casa, ensanduichados entre eles. Quando o Taliban começou a recuar, eles (soldados ocidentais) dispararam a artilharia contra eles, 12 salvas. Uma delas atingiu minha casa."

Uma porta-voz da Otan rejeitou o relato de Rahman e disse que uma investigação interna concluiu que era "muito improvável" que o disparo, por seu momento e localização, tenha partido da tropa estrangeira.

"Uma equipe de morteiros inimiga, que sabidamente opera naquela área, pode ter sido responsável", disse a major Jennifer Willis, acrescentando que já foi observado o uso de fósforo branco pelo Taliban no passado.

Mas Marc Garlasco, analista militar da entidade Human Rights Watch, disse que eventuais usos da substância pelo Taliban "parecem incidentes isolados em comparação com o uso difundido e regular do fósforo branco por forças dos EUA e da Otan."

Zabihullah Mujahid, porta-voz do Taliban, negou que o grupo islâmico use o fósforo branco. O governo afegão, aliado dos EUA, também disse desconhecer esse fato.

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