Queda de Mugabe colocaria em apuros toda a África austral

Uma mudança de regime no Zimbábue e a conseqüente saída do atual presidente, Robert Mugabe, deixaria em situação delicada os países vizinhos, sempre cuidadosos na hora de criticar o todo-poderoso Mugabe.

AFP |

Se o presidente do Zimbábue, de 84 anos, à frente do governo desde a independência em 1980, decidir finalmente abandonar o poder, aquela região da África terá que assumir seus anos de silêncio diante das contínuas violações dos direitos humanos.

Por outro lado, os dirigentes africanos - muitos deles antigos combatentes do colonialismo, como Mugabe - poderão respirar tranqüilos por não ter mais um vizinho tão complicado.

"É evidente que o governo (de Pretória) sempre buscou todo tipo de desculpas para Mugabe. Um governo dirigido pelo MDC (Movimento pela Mudança Democrática, liderado pelo opositor Morgan Tsvangirai) não pode esperar que (o presidente sul-africano) Thabo Mbeki se mostre amigável", afirma o analista Moelestesi Mbeki.

Para o especialista em Ciências Políticas e irmão do presidente sul-africano, as relações entre os dois dirigentes será "na melhor das hipóteses, educada".

Já Ebrahim Fakir, do Centro de Estudos Políticos de Johannesburgo, acredita que a mediação entre o poder e a oposição do Zimbábue, que a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral confiou em março ao presidente Mbeki, permitiu modificar a lei eleitoral para que os resultados das urnas fossem divulgados nos colégios eleitorais, impedindo assim que o governo manipulasse os votos.

No entanto, Moelestesi Mbeki diz que a organização "perdeu quase toda a sua credibilidade" quando, no dia 29 de março, antes da divulgação dos resultados oficiais, garantiu que as eleições no Zimbábue haviam sido "críveis e pacíficas".

Os dois analistas concordam no fato de que o êxito eleitoral do MDC, que acabou com a maioria parlamentar do partido de Mugabe após 28 anos, se deve à crise econômica do país, com uma inflação recorde de mais de 160.000%.

Em relação a Mugabe, "só o preocupam as relações interraciais, seu combate à antiga colônia britânica e tirar poder do homem branco", enquanto seu país afundava na misária, argumentou Mbeki.

Parte da imprensa sul-africana criticou nesta sexta-feira o fato de seu presidente não ter demonstrado "antes uma atitude mais firme" contra Mugabe, que tivesse evitado o empobrecimento da população zimbabuana.

Outros jornais, porém, destacaram o esforço diplomático de Mbeki, que possibilitou "um desenlace espectacular" das eleições no Zimbábue.

De qualquer modo, com ou sem Tsvangirai no poder, o Zimbábue deverá trabalhar com seus vizinhos e "manter as relações regionais, gostem ou não", concluiu Fakir.

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