Quase 20 anos após a queda do Muro, uma linha invisível ainda divide Berlim

O Muro foi derrubado há vinte anos, mas uma linha invisível perdura entre os lados Ocidental e Oriental de Berlim, como mostrou um referendo relativo ao aeroporto histórico de Tempelhof: Berlim Ocidental votou por sua manutenção, Berlim Oriental, contra.

AFP |

Os defensores da manutenção em atividade do aeroporto perderam na votação de domingo por falta de quórum. O resultado foi exibido nos jornais desta segunda-feira que compararam com a situação da Alemanha dividida pelo Muro antes de 1989.

Os moradores do lado ocidental se mobilizaram no domingo para comparecer às urnas e manifestaram seu comprometimento com o "símbolo do ponto aéreo aliado", que permitiu em 1948-49 ajudar dois milhões de berlinenses do lado oriental submetidos ao bloqueio do lado soviético, em plena Guerra Fria.

Mas na região da ex-RDA, a extinta República Democrática Alemã, os eleitores votaram contra o Tempelhof, com mais de 60% de votos contrários.

"Achávamos que a questão da divisão estava superada, mas a campanha do referendo a retomou", considerou o jornal Tagesspiegel, segundo o qual "a maior parte dos berlinenses orientais" consideram Tempelhof "um velho símbolo, estranho para eles".

Esta votação, última tentativa de "salvar" o Tempelhof lançada pelos defensores da manutenção do aeroporto, tocava em um tema "carregado de emoção ... por motivos históricos", reconheceu nesta segunda-feira o prefeito de Berlim, Klaus Wowereit.

O resultado ainda permanece sintomático das diferenças que permanecem na mentalidades dos lados ocidental e oriental da cidade - uma constatação amarga para as autoridades, que não pouparam esforços depois da Reunificação para unir a cidade, com milhões investidos em programas sociais.

Em Berlim, os mais ricos continuam a viver do lado ocidental e os mais pobres, em maioria do lado oriental, à exceção das famílias de origem imigrante que se estabeleceram sobretudo a oeste.

As melhores escolas estão no oeste, as piores ainda ficam no leste. E é no leste que há o maior número de desempregados e de pessoas que dependem de ajuda do governo, nos bairros onde estão localizados os conjuntos habitacionais herdados da extinta RDA.

O coração da capital é uma ilha à parte: os bairros de Prenzlauer Berg e Mitte estão bem localizados na antiga Berlim-Oreitanl, estão entre os mais valorizados. A revitalização de prédios a partir dos anos 90 atraiu uma clientela em grande parte não berlinense.

No dia 9 de novembro de 2009, a Alemanha festejará com grande pompa os 20 anos da queda do Muro. Mas em Berlim-Oriental como na antiga RDA, muitos ainda esperam as "paisagens florescentes" prometidas pelo chanceler Helmut Kohl no momento da Reunificação.

Berlim, um sonho de unidade, onde as frustrações e questões conflituosas ressurgem regularmente entre "Wessis" e "Ossis", em uma cidade dotada de um único governo regional incluindo antigos herdeiros do comunismo da RDA (dentro do partido Die Linke, Esquerda). Um exemplo da divisão: os "Ossis" tentaram durante quinze anos salvar o "Palácio da República", uma construção de vidro fumé no mais tradicional estilo soviético.

Para tentar melhorar a imagem de Berlim e torná-la mais atrativa, a Prefeitura lançou em março uma campanha, "Be Berlin".

Em seu site na internet (www.sei.berlin.de), moradores têm a palavra. Como Steffi, 23 anos, estudante de História, que se queixa dos "preconceitos": quando ela diz que mora em Marzahn (no leste), todos ainda imaginam que vive na miséria da RDA.

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