Quadro roubado foi pista que levou à prisão de Hadzic na Sérvia

Ex-líder servo-croata foi preso em floresta, quando recebia dinheiro após tentativa de vender suposto quadro de Modigliani

iG São Paulo |

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Foto fornecida pelo jornal Politika mostra criminoso de guerra Goran Hadzic preso em Fruska Gora, na Sérvia
O ex-líder servo-croata Goran Hadzic, último dos fugitivos procurados pelo tribunal da ONU para crimes de guerra na ex-Iugoslávia cuja prisão foi anunciada nesta quarta-feira , foi capturado quando encontrava um homem que lhe entregava dinheiro em uma região montanhosa da Sérvia onde vivem muitos de seus parentes, disseram autoridades citadas pela agência Associated Press.

Segundo o procurador de crimes de guerra sérvio, Vladimir Vukcevic, Hadzic foi preso em uma floresta perto da vila de Krusedol depois que os investigadores seguiram a pista de um quadro roubado atribuído ao artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920).

"O grande avanço na investigação foi a informação de que ele queria vender um quadro de Modigliani por estar ficando sem dinheiro; ele estava sem nenhum tostão", disse Vukcevik. "Ele provavelmente conseguiu o quadro durante o conflito na Croácia."

De acordo com essas fontes, sua aparência mudou dramaticamente e, apesar de armado, não resistiu à prisão. Atualmente com 52 anos, Hadzic liderou as forças separatistas sérvias durante a Guerra da Croácia (1991-1995).

No início deste ano, tabloides sérvios relataram que a pintura, que alegadamente seria intitulada como "Retrato de um Homem", havia sido descoberta na casa de um amigo de Hadzic. O Registro de Arte Perdida em Londres, que rastreia quadros perdidos ou roubados, lista quatro retratos de homens feitos por Modigliani como roubados, disse o diretor-executivo Christopher Marinello.

Segundo ele, os quadros do pintor italiano foram vendidos recentemente por valores entre US$ 4 milhões e US$ 10 milhões, mas que o vendedor de um quadro roubado pode conseguir apenas de 5% a 10% dessa cifra se negociar no mercado negro. Também há uma real possibilidade de o quadro, que aparentemente foi exposto em Belgrado em meados dos anos 2000, seja falso, disse um agente policial que investiga trabalhos de arte roubados.

Hadzic, que é acusado por supostas atrocidades cometidas durante a guerra de independência da Croácia, foi preso nesta quarta-feira por volta das 8h20 locais (3h20 de Brasília) na região de Fruska Gora, uma área montanhosa a 80 quilômetros ao norte de Belgrado, disse o presidente sérvio, Boris Tadic. "A Sérvia concluiu os capítulos mais difíceis na cooperação com o TPII", declarou Tadic, anunciando que seu país prosseguirá com o cumprimento de seus compromissos internacionais.

Após sua captura, Hadzic foi transferido ao departamento especial de crimes de guerra do Tribunal de Belgrado, onde pelas normas sérvias será interrogado. A extradição ao TPII, de acordo com a lei, poderia ocorrer no prazo de uma semana.

O Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia (TPII) tornou pública a acusação contra ele em 2004, acusando-o do assassinato de centenas de croatas e outros cidadãos não-sérvios da Croácia. Sua prisão ocorre menos de dois meses após a Sérvia prender o antigo comandante militar servo-bósnio Ratko Mladic . Das 161 pessoas acusadas pelo TPII desde sua criação em 1993, Hadzic era o único que seguia em liberdade após a captura de Mladic.

A captura dos dois era uma das condições da União Europeia (UE) para a aproximação da Sérvia ao bloco, aspiração que Belgrado espera concretizar com sua aceitação como candidato à adesão neste ano. Tadic lembrou que, desde 2008, as autoridades sérvias capturaram, além de Hadzic e Mladic, também Radovan Karadzic, o ex-líder político dos sérvios da Bósnia, outro acusado que liderava a lista de foragidos do TPII.

Acusações

Hadzic havia desaparecido há sete anos, após seu indiciamento pelo tribunal da ONU ter sido comunicado ao governo sérvio. Hadzic foi indiciado por 14 acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo perseguição, extermínio, deportação e destruição por seu envolvimento em atrocidades cometidas pelas tropas sérvias na Croácia. Entre as principais acusações contra ele está a deportação de 20 mil pessoas após a ocupação da cidade de Vukovar.

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Foto de 18/11/1991 mostra soldados iugoslavos e voluntários sérvios escoltando civil croata depois de entrarem em Vukovar, no leste da Croácia
Nascido em 1958, ele era dono de armazém antes da desintegração da antiga Iugoslávia e, desde sua juventude, tinha uma forte atuação política como membro da Liga dos Comunistas. No início da década de 1990, quando começou a desintegração da federação iugoslava, militou nas fileiras dos partidos nacionalistas sérvios que se formaram na época e logo ganhou destaque como um dos líderes sérvios na Croácia.

Durante 1992 e 1993, Hadzic foi presidente da autoproclamada República Sérvia de Krajina, que ocupou cerca de um terço do território da Croácia durante a guerra no país, e sob sua liderança foram cometidos crimes contra a humanidade.

Depois da guerra, o ex-líder viveu na Sérvia até ser divulgado que era procurado pela Justiça internacional. Segundo a Procuradoria do TPII, Hadzic passou à clandestinidade em 2004, "apenas horas depois que as autoridades de Belgrado receberam uma solicitação para sua detenção".

Nos últimos tempos, as autoridades sérvias intensificaram as buscas, o que levou sua família a expressar sua frustração e ansiedade. Uma irmã de Hadzic declarou recentemente ter perdido seu emprego por ser parente do suposto criminoso de guerra, enquanto um de seus filhos revelou não conseguir dormir diante do temor de que as unidades especiais da polícia invadissem sua casa.

*Com BBC, AP, Reuters e EFE

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