Pyongyang deveria alimentar seu povo em vez de investir no nuclear

Para os refugiados norte-coreanos, que tentam se adaptar à nova vida no sul, o dinheiro investido pelo regime de Pyongyang em seu programa nuclear seria mais útil se fosse utilizado para alimentar uma população faminta.

AFP |

"Quando a Coreia do Norte efetuou seu primeiro teste nuclear (em 2006), fiquei muito orgulhoso. Acreditei que meu país estava mostrando seu poder", relatou um norte-coreano que fugiu de seu país e vive agora em um centro de refugiados no sudeste de Seul.

"A Coreia do Norte realizou agora um segundo teste nuclear, que não trouxe benefício algum. O dinheiro que isso custou deveria ter sido empregado para melhorar as condições de vida da população norte-coreana", acrescentou este homem de 35 anos, que não quis ser identificado.

Desde o fim da guerra da Coreia, em 1953, mais de 15.000 norte-coreanos fugiram de seu país, da repressão e da fome rumo à Coreia do Sul.

Economicamente devastada, a Coreia do Norte é assolada por uma penúria alimentar crônica sendo forçada a recorrer à ajuda estrangeira - agora muito reduzida - para alimentar seus 24 milhões de habitantes.

A fome que assolou o país de 1996 a 1999 teria provocado a morte de um milhão de pessoas. Segundo o Programa Alimentar Mundial (PAM), quase 40% da população precisa de ajuda alimentar de urgência.

Pyongyang, que ameaçou Seul com um ataque militar segunda-feira, afirmou que o teste nuclear efetuado naquele dia "estimulou muito o exército e o povo". No entanto, os refugiados não têm a mesma opinião. "Talvez a elite e os membros do partido tenham ficado orgulhosos, mas as pessoas comuns estão muito longe disso. A Coreia do Norte deveria ter utilizado esse dinheiro para dar comida aos mais necessitados", comentou outro refugiado, de 41 anos.

"A Coreia do Norte possui um exército gigantesco, e o país vem sofrendo há muito tempo para financiá-lo. Na verdade, até os soldados passam fome", afirmou.

Para evitar represálias contra suas famílias que ficaram na Coreia do Norte, nenhum refugiado entrevistado se identificou.

Os que fugiram, mulheres em maioria, foram levados para o centro de refugiados de Hanawon, cercado por barreiras e estritamente vigiado pela polícia.

A maioria cruzou a fronteira chinesa, correndo o risco de serem deportados para seu país, antes de passar por um país do sudeste asiático para chegar em seguida à Coreia do Sul. Vários apresentam doenças contagiosas, como tuberculose.

No centro de Hanawon, eles têm aulas sobre como viver em um país democrático e capitalista, e seguem um curso profissionalizante durante dois meses, além de aprender o dialeto local e assuntos básicos como, por exemplo, usar um cartão de crédito ou comprar uma passagem de trem.

"A maioria se considera desprezada pelos sul-coreanos", destacou Young Miryang, diretor-geral do centro.

Apesar das dificuldades de adaptação, todos esperam uma vida melhor. "Sinto-me em casa aqui. Espero que os sul-coreanos me tratem de igual para igual" um dia, disse uma refugiada de 42 anos.

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