Psss, silêncio! (ou oba, todo mundo nu?)

Vez por outra vou à biblioteca do bairro. Como o bairro é bem fornido, há cinco a meu dispor.

BBC Brasil |

A menos de um quarteirão, aquela onde estou registrado há mais de 30 anos. Já passou por amplas reformas. Todas benignas. Nada de espigão ou blindagem.

Hoje, toda informatizada e discretamente decorada, lá está com suas imensas estantes separadas direitinho por assunto, mesas com os jornais do dia, os velhinhos habituais como eu, xeretando, algumas senhoras procurando um bom romance enquanto a filharada, em torno da mesa comunal, folheia revistinhas infantis, todas elas provavelmente com super-heróis defendendo o mundo de uma destruição alienígena.

Uma mais que razoável seleção de DVDs num canto de bom tamanho. Lá peguei emprestado, por alguns dias, a preço de banana (não que estas estejam baratas por aqui), pelo menos uns cinco filmes do Fassbinder, quando este estava na moda. Se eu quisesse teria acesso também aos mais recentes sucessos de bilheteria e deboche dos críticos. Tinha até musicais antigos.

Por falar em música, nada má a seleção de discos. CD, claro. Vinil, já seria exagero. Embora, não sei não, não sei não... Sempre fui mexer na parte dedicada ao jazz. Tinha muita coisa boa. Com toda certeza infringindo várias leis, copiei para o cassete (ah, o tempo do cassete!) alguns discos que eu queria ouvir e ter mas faltava-me a verba para comprar. Puro pão durismo.

Minha filha, menininha ainda, fez boa parte de sua educação em literatura infantil a menos de 200 metros de casa, lá na biblioteca de Old Brompton Road. Hoje, a biblioteca tem em suas estantes os três livros que a menina, não mais tão menina, publicou nos últimos quatro anos. Sei porque chequei. Apraz-me pensar que a biblioteca, da qual somos todos uma espécie de sócios proprietários, contribuiu para aprimorar os dotes narrativos da hoje jovem senhora em questão.

Ah, sim. Na entrada da biblioteca, aquele "quadro-verde" de avisos onde as pessoas pregam suas notícias para o mundo. Moças ucranianas se oferecendo como babás. Poloneses dispostos a levar todos os dias para passear o cachorrinho do senhor ou da madame. Outros querendo vender um sistema de som antigo ou procurando computadores do tempo do onça.

Um clima saudável onde, como ainda pode se encontrar em vários bairros londrinos: silêncio, paz, cortesia.

Alguém pediu licença para discordar.

Andy Burnham, secretário adjunto para assuntos culturais, anunciou, ainda outro dia, para a autoridade responsável pelas bibliotecas públicas, a "Public Libraries Authority", que, no seu entender, deveria haver mais "alegria e falação" nos locais em questão.

Pequena pausa libresca. Andy. Abreviação de Andrew. Nunca confie em político que se diminui em apelidos. Gegê e Jango são uns exemplos. Não disse que eram bons exemplos. Apenas exemplos. Azar o de quem confiou neles.

Voltando a Andrew, uma vez que, neste espaço onde comando até um certo ponto as ações, reina um certo sensato pudor. Andrew Burnham acha que as bibliotecas atuais, do jeito que são, na sua opinião são por demais "solenes e sombrias". Andrew Burnham pondera que este estado de coisas impede que uma família se divirta numa biblioteca.

Andy, e agora vou no clima dele, com intimidade beirando a falta de respeito, não entende nada de biblioteca ou de família. Andy devia estar pensando nos pubs, nas algazarras das noites dos sábados de verão, na arquibancada de jogo do Arsenal ou do Manchester United. Por aí.

Biblioteca, meu boneco, é algo totalmente diferente. A felicidade, ou, para ser mais modesto, o bem-estar interior deve ser exatamente isso: interior. Não é necessário exteriorizar nada. Não estamos no Rio de Janeiro em sambódromo no dia de desfile das escolas de samba.

Resta-me sugerir que, para as folias de Momo de 2009, as autoridades competentes brasileiras - alegres, exteriorizadas, altissonantes - convidem Andy Burnham para as festanças. Peço que, se possível, dêem-lhe um lugar no mais desassossegado dos camarotes existentes. Não me parece difícil.

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