Protestos na Argentina completam 100 dias com rejeição à pressão do Fisco

Alejandro Méndez Buenos Aires, 19 jun (EFE).- O conflito entre o Governo argentino e o setor agrário completa hoje 100 dias com escassez de alimentos e dirigentes em inflexível rejeição à pressão do Fisco, embora o Parlamento vá analisar o assunto, como era desejo dos manifestantes.

EFE |

O Governo de Cristina Fernández de Kirchner reafirmou hoje que "não cederá" às pressões do campo e prepara uma estratégia parlamentar, já que a política impositiva do Executivo causa divisão no grupo majoritário de legisladores governistas e aliados.

Enquanto isso, duas pesquisas revelaram que pelo menos seis em cada dez argentinos apóiam a intervenção do Parlamento no conflito, apesar de responder a uma tardia decisão de Cristina, cuja popularidade continua em baixa, segundo uma enquete feita pela imprensa.

As associações de supermercados se queixam de desabastecimento de alimentos básicos por causa dos bloqueios de estradas realizados por alguns grupos agrários, e o comércio no varejo diz ter perdido cerca de US$ 600 milhões no último mês em vendas.

O chefe do Gabinete argentino, Alberto Fernández, afirmou que a política impositiva "está aberta ao debate", apesar de o Executivo ter proposto aos legisladores que aprovem ou rejeitem o sistema de impostos às exportações de grãos que gerou o conflito no início de março.

Além de que o Governo queira uma ratificação "a livro fechado", como aduziu quarta-feira o campo para manter seus protestos, está claro que o Parlamento pode mudar o projeto oficial, que começará a ser debatido nas comissões na próxima semana.

A intervenção parlamentar foi aprovada por Cristina na terça-feira, quando o conflito completou 98 dias e a oposição tinha fracassado em quatro ocasiões na anulação ou modificação na pressão do Fisco sobre o setor agropecuário, o mais competitivo e dinâmico da economia argentina.

O vice-presidente argentino, Julio Cobos, anunciou que na próxima segunda-feira se reunirá com seis governadores, tanto aliados quanto oposicionistas, "para escutar as idéias e contribuições" de cada um deles visando ao debate parlamentar.

Entre os que irão à reunião está o governador de Santa Fé, o socialista Hermes Binner, um dos líderes que questionou a política impositiva e defendeu o diálogo com o setor agropecuário.

Também estará presente o governador de Corrientes, Arturo Colombi, que, como Cobos, é um "radical K", nome dado aos dirigentes da centenária União Cívica Radical, aliados da peronista Frente para a Vitória, liderada pelo ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), antecessor no cargo e marido de Cristina.

Julio Cobos prometeu que o debate com os líderes provinciais será "aberto" e com a possibilidade de melhorar o projeto enviado pelo Executivo.

Governadores e dirigentes peronistas que discordam da pressão do Fisco sobre o campo instruíram legisladores de seus distritos a levarem essa posição aos debates da Câmara dos Deputados, de 254 membros, onde o oficialismo e seus aliados têm maioria.

O núcleo da oposição ao Governo de Cristina tem 84 deputados, quando, para iniciar um debate, são necessários mais de 129. Para a aprovação de uma iniciativa, precisa-se de 65 votos.

Fontes parlamentares calculam que dos 118 deputados governistas, há pelo menos 15 das províncias de Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba e Entre Ríos, as mais afetadas pelo conflito, que se opõem ao projeto de ratificar a política do Governo.

Uma parte dos 25 deputados aliados, entre eles os "radicais K" e socialistas, também diverge dessa política, o que faz prever que o debate colocará à prova as alianças do Governo.

"Não estamos dispostos a ceder à pressão de uma corporação com interesses muito pontuais: fazê-lo implicaria em renunciar ao futuro de milhões de argentinos", ressaltou o ministro do Interior, Florencio Randazzo, em declarações à rádio e à televisão.

Randazzo rejeitou duras declarações de Alfredo De Angeli, um dos dirigentes da combativa Federação Agrária, que disse ser preciso "dissolver" o Parlamento, referindo-se à limitação dos congressistas a apenas aprovar propostas governistas nos últimos anos.

O vice-presidente de Confederação Intercooperativa Agropecuária, Carlos Garetto, pôs panos quentes, ao admitir que agricultores e criadores de gado "deveriam centrar a reivindicação no setor e não misturar nisso posições políticas ou ideológicas". EFE alm/rb/db

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