Protestos importam mais fora do que dentro de Cuba

Especialistas duvidam que insatisfação popular, extravasada por meios como a internet, resulte na iminente queda do regime

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Os primeiros quatro meses deste ano foram movimentados em Cuba: marchas pelas ruas de Havana reivindicaram a libertação de presos políticos; a morte de um deles, após 85 dias de greve de fome, atraiu críticas de Estados Unidos, União Europeia e de grande parte da comunidade internacional; na internet, um grupo de “blogueiros alternativos” manteve seu exercício de relatar ao mundo como é a vida sob um governo repressor; se não bastasse, a ilha enfrenta grandes dificuldades na economia com a queda do preço internacional do níquel, seu principal produto de exportação, e do turismo.

Tal cenário estimulou o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, professor da Universidade de Nova York e membro da New American Foundation, a afirmar que o cinquentenário regime dos irmãos Castro pode até estar à beira do colapso. “A última esperança para a revolução cubana, que reside em Caracas, pode cair a qualquer momento”, afirmou em um artigo na revista americana "Newsweek", referindo-se às dificuldades econômicas e sociais que o governo da Venezuela, o principal parceiro de Cuba, enfrenta atualmente. “Esse parece um momento sem precedentes na história do castrismo. Pode ser apenas uma fagulha ou uma tormenta perfeita”, completou.

Mas especialistas ouvidos pelo iG veem com ceticismo essa perspectiva. Segundo Jaime Suchlicki, diretor do Instituto para Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami, nos EUA, a falta de uma oposição organizada impede que a insatisfação popular represente uma ameaça real ao regime. “Apesar de muita gente estar descontente com a situação econômica do país, sobretudo os jovens, isso não significa que o regime está à beira do colapso, porque esse movimento não é organizado”, afirmou.

A principal justificativa para essa desorganização, explica o especialista, é o fato de o isolamento cubano não se restringir ao que acontece do lado de fora da ilha. “Em Cuba, a internet é usada para se comunicar com o mundo exterior. As pessoas de uma região não sabem o que está acontecendo com outra por não conseguir se comunicar entre si”, disse. “Os protestos ganharam força, mas são mais importantes fora de Cuba do que dentro dela”, afirmou.

Desafios da era digital

Embora também duvide da queda imediata do regime, a analista Julia E. Sweig, do Council on Foreign Relations, acredita que a dificuldade de controlar a distribuição de informação na era digital, que está chegando à ilha, deve ter consequências na ilha. “Não podemos dizer que Cuba é um país conectado, porque há muitas limitações. Mas mesmo essa pequena conexão que começa a existir já surte efeito. As pessoas estão mais informadas e isso cria uma maior demanda por mudança”, disse a autora do livro “Cuba: What Everyone Needs to Know” (O que Todos Precisam Saber, em tradução literal).

E a maior distribuição de informação em Cuba é em parte decorrente de pequenas reformas anunciadas pelo presidente Raúl Castro, segundo a pesquisadora. Em seu discurso de posse, em fevereiro de 2008, o líder cubano prometeu que proibições “mais simples” às quais os cubanos estavam sujeitos seriam eliminadas para “satisfazer as necessidades básicas da população, tanto materiais quanto espirituais.”
Entre as medidas anunciadas nos meses seguintes estiveram a permissão para que as lojas vendessem celulares, computadores e DVDs, e para que os hotéis voltassem a receber cubanos e não apenas estrangeiros – algo que não acontecia desde 1993.

As novidades acabaram por beneficiar blogueiros como Yoani Sánchez , que usam a internet para publicar relatos do dia-a-dia em Cuba, frequentemente acompanhados de críticas ao governo. As limitações ainda são grandes - do alto custo de conexão às repressões do governo -, mas por causa da nova lei os blogueiros já não precisam fingir ser turistas para acessar a internet em um hotel de Havana, por exemplo.

Yoani é uma dos 100 cubanos que mantêm blogs independentes regularmente atualizados, segundo relatório divulgado em 2009 pelo Comitê de Proteção dos Jornalistas, organização que defende a liberdade de imprensa. Destes, 25 têm conteúdo jornalístico e se opõe diretamente a outros 200 blogs mantidos por cubanos ligados ao governo, segundo estimativa da União dos Jornalistas de Cuba.

Debate interno no regime

Apesar da repercussão internacional do movimento de “blogueiros alternativos”, a analista Julia E. Sweig considera um “erro” considerá-los os únicos possíveis agentes de mudança. Para ela, mais significativo é o debate interno no Partido Comunista, estimulado pelo desejo de não pôr em risco o legado da Revolução de 1959. “Dissidência sempre existiu, mas agora membros da Revolução estão fazendo críticas e suas vozes são levadas muito mais a sério (do que a dos blogueiros) pelo regime", afirmou.

Desde que assumiu o poder, o próprio Raúl abriu espaço para que o partido discutisse pequenas reformas econômicas (mas não políticas) que atendam algumas das reivindicações da população para garantir a sobrevivência do regime.

Mas essa “abertura para o debate” econômico pode contrapor reformistas e linhas-duras, o que seria um desafio para o presidente, opina Edward Gonzalez, professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

“O regime pode enfrentar uma divisão interna sobre qual caminho tomar. Assim, os linhas-duras (que discordam de qualquer reforma) podem se tornar cada vez mais resistentes aos reformistas que preferem seguir o modelo chinês e combinar autoritarismo político com uma economia voltada para o mercado”, afirma.

Segundo o professor, a questão é saber se Raúl, que não possui a mesma liderança e carisma de Fidel, conseguirá em longo prazo “gerenciar as divisões internas ao mesmo tempo em que tenta ganhar o apoio da população”.

Em contraponto, Suchlick, da Universidade de Miami, acredita que os debates internos sobre a economia trarão poucos avanços. “O sistema comunista não pode ser modificado aqui e ali. É preciso mudá-lo completamente: privatizar, abrir para o mercado estrangeiro, fazer com que a população seja dona do próprio negócio. Raúl e Fidel não estão dispostos a isso porque temem perder poder”, avalia.

“Uma revolta popular sempre pode acontecer, mas, no caso de Cuba, provavelmente vamos ter de esperar a morte de Fidel, Raúl e pessoas como Ramiro Valdés (veterano da Revolução e atual ministro da Informática e das Comunicações, aos 78 anos,) para que alguma coisa possa evoluir.”

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