Protestos forçam renúncia de presidente da Tunísia

Ben Ali fugiu do país em meio a manifestações contra desemprego e corrupção; total de mortos seria de 81 desde dezembro

iG São Paulo |

O presidente da Tunísia, Zine El Abidine Ben Ali, renunciou depois de 23 anos no poder em meio a protestos sem precedentes em várias cidades do país, incluindo a capital, Túnis. O primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi anunciou em um pronunciamento na TV que assumiria o poder interinamente após Ben Ali abandonar o país.

"De acordo com o artigo 56 da Constituição, assumo a partir deste momento o cargo de presidente interino", disse Ghannouchi no palácio presidencial de Cartago. Ao lados dos líderes do Congresso, o novo presidente, de 69 anos, pediu unidade aos tunisianos de todas as correntes políticas. "Conclamo os tunisianos de todas os ideais políticos e regionais a demonstrar patriotismo e unidade" nesta hora, declarou.

Ben Ali deixou o país depois de um mês de protestos contra corrupção, desemprego e inflação que deixaram oficialmente 23 mortos, número que, segundo fontes independentes, seria de 81.

Há informações de que ele poderia ter fugido para a ilha de Malta, no Mediterrâneo, ou para a França. O governo francês, porém, recusou-se a confirmar a informação. De Paris, partidos políticos da oposição tunisiana reivindicaram a realização de eleições livres no país.

O antes todo-poderoso presidente tentou lutar contra o descontentamento popular por todos os meios, usando a repressão e depois fazendo concessões. Na quinta-feira, anunciou a redução do preço da cesta básica de alimentos e a intenção de deixar o poder no final do mandato, em 2014.

Nesta sexta, dissolveu o governo e prometeu a convocação de eleições antecipadas dentro de seis meses, e as autoridades impuseram estado de emergência com toque de recolher em todo o país entre 18h e 6h locais. Por sua vez, o Exército tomou o controle do aeroporto internacional de Túnis-Cartago fechando o espaço aéreo.

O decreto do estado de emergência proíbe que mais de três pessoas se reúnam nas ruas, e as forças de segurança receberam a autorização de abrir fogo contra aqueles que desobedeceram suas ordens. Mas tudo foi em vão.

Milhares de manifestantes voltaram às ruas nesta sexta-feira para pedir a demissão do presidente, com protestos na capital e em várias cidades dessa ex-colônia francesa da África do Norte, independente desde 1956. Os tumultos afetam o turismo, setor básico da economia tunisiana. Milhares de turistas europeus foram retirados nos últimos dias.

Durante as manifestações, a polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Os protestos ocorreram apesar do discurso que Ben Ali fez na véspera na tentativa de diminuir a tensão em seu país. No pronunciamento, ele pediu à força pública que não atirasse contra os manifestantes e anunciou que não desejava disputar um novo mandato em 2014.

Em função dos distúrbios, o embaixador da Tunísia perante a Unesco, Mezri Hadad, apresentou nesta sexta-feira sua renúncia, vários dias depois de ter pedido ao presidente que "detivesse o banho de sangue contra os manifestantes", segundo uma carta.

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navy Pillay, pediu na quarta-feira ao governo da Tunísia a realização de investigações "independentes" sobre o "uso excessivo" da força por parte de seus serviços de segurança.

O ministro de Relações Exteriores Kamel Morjane afirmou esta sexta-feira que um governo de unidade nacional em seu país "é possível e até seria normal". "Com o comportamento de pessoas como Nejib Chebi (opositor), acho que é possível, até seria totalmente normal", declarou o ministro por telefone.

Chebi é o líder histórico do Partido Democrático Progressista (PDP), um grupo opositor autorizado na Tunísia, mas que não tem representação no Parlamento.

*Com AFP, EFE e BBC

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