LA PAZ - Os opositores regionais ao presidente da Bolívia, Evo Morales, continuaram, nesta quarta-feira, os protestos contra o corte da receita petrolífera, mas com menor intensidade do que nos últimos dias, com um bloqueio de estradas que só foi apoiado por três departamentos.

Após a greve realizada na terça-feira nas regiões de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, todas controladas pela oposição, os dirigentes autonomista destes departamentos convocaram para hoje um bloqueio nacional de estradas de 24 horas com o objetivo de "isolar" a região oeste do país.

No entanto, só em Santa Cruz, Beni e Pando (no leste e norte do país) ocorreram interrupções em alguns pontos de rotas troncais, que comunicam estes departamentos com o centro e o oeste.

Estes bloqueios, que foram mais intensos nas estradas que ligam Santa Cruz com a região de Cochabamba (centro), provocaram retenções principalmente de caminhões e a suspensão de viagens de ônibus para o leste da Bolívia, informaram à Agência Efe fontes oficiais.

Além disso, grupos de jovens autonomistas de Beni bloquearam o principal mercado de Trinidad, a capital departamental, para impedir a saída de produtos de carnes para La Paz, segundo a imprensa local.

Ao contrário dos protestos de dias anteriores, hoje não foram registrados choques violentos.

Os governadores regionais e os dirigentes cívicos de Santa Cruz, Beni, Pando e Chuquisaca implementaram um plano de protestos contra Morales, para exigir a devolução de uma parte do Imposto Direto aos Hidrocarbonetos (IDH) que o Governo cortou das regiões no começo do ano para financiar um benefício aos idosos.

Estes governadores acusam Morales de querer enfraquecer economicamente seus departamentos e de tentar impedir a aplicação dos estatutos de autonomia aprovados em Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, os quais o Governo considera "ilegais e separatistas".

Em Chuquisaca (sul) não foram realizados hoje bloqueios de estradas por parte dos grupos opositores a Morales para evitar conflitos com a Federação de Camponeses deste departamento.

Os camponeses decidiram, por sua vez, obstruir algumas vias em direção às regiões de Potosí e Cochabamba em rejeição às ações dos autonomistas.

Em Tarija (sul), as interrupções de vias também não foram apoiadas, apesar de as autoridades cívicas locais terem se reunido para decidir novas ações contra o Governo, sem descartar a tomada de instalações petrolíferas para que "não saia gás para ninguém", disse um dirigente opositor.

Perante o bloqueio de estradas anunciado, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, afirmou que o Governo não intervirá para não cair nas "provocações" dos opositores.

Em especial, destacou, as do governador regional de Santa Cruz, Rubén Costas, e do presidente cívico deste departamento, Branko Marinkovic.

Quintana acusou estes dirigentes de pretender apenas "semear violência", ao denunciar que há "indícios do emprego de franco-atiradores e de grupos armados, de gente paga disposta a matar, que preparam emboscadas às polícias se decidirem intervir".

A Bolívia continua imersa em um tenso confronto político, apesar do referendo sobre mandatos realizado em 10 de agosto, que ratificou Morales, assim como seus principais rivais autonomistas.

A crise boliviana está precisamente marcada pela disputa entre o projeto constitucional proposto por Morales e o processo autonomista iniciado em várias regiões à margem das autoridades nacionais.

Após a consulta de 10 de agosto, Morales e os governadores regionais opositores de Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, além de representantes de Santa Cruz, conseguiram se reunir em La Paz para tentar abrir uma mesa de diálogo, que fracassou pelas diferenças em torno da devolução do IDH.

Referendo

Os protestos ocorrem nove dias depois do referendo revogatório que ratificou tanto Morales quanto a oposição no poder.

O presidente boliviano recebeu, segundo dados oficiais, cerca de 10 pontos percentuais a mais (67%) do que quando foi eleito, em dezembro de 2005.

No fim de semana, mais de 20 pessoas ficaram feridas em enfrentamentos em Santa Cruz.

Na ocasião, deficientes protestaram por uma bonificação anual de 3 mil bolivianos (em torno de US$ 420).

"Uma situação insólita. Deficientes com cadeiras de rodas e muletas brigando nas ruas. Único setor social a apoiar os opositores de Morales", disse a comunicadora Amalia Pando, da Red Erbol, em seu editorial de terça-feira.

(*Com informações da agência EFE e da BBC)

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