Protesto por Guantánamo cobre Estátua da Liberdade de Paris

Réplica ganha lona laranja, semelhante ao uniforme dos detidos, para marcar os dez anos desde que prisão foi aberta pelos EUA

iG São Paulo |

Militantes da Anistia Internacional cobriram nesta terça-feira com uma lona laranja a réplica da Estátua da Liberdade em Paris, na França, para exigir o fechamento da prisão de Guantánamo, que na quarta-feira, 11 de janeiro, completa dez anos desde que foi aberta pelos Estados Unidos.

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AFP
Ativistas colocam lona laranja em réplica da Estátua da Liberdade em Paris, França, em protesto dos dez anos de Guantánamo

A lona cor de laranja relembra a cor do uniforme dos prisioneiros de Guantánamo. "Há dez anos, os EUA burlam os direitos humanos. Essa ação simboliza o fato de os EUA darem as costas à Justiça, aos direitos humanos, à liberdade", declarou Geneviève Garrigos, presidente da AI na França.

"Nós exigimos o fechamento de Guantánamo, assim como investigações sobre os autores desse sistema e dessas violações que podem ficar sem punição: detenções arbitrárias, detenções ilimitadas sem processo, uso da tortura, transferências de prisioneiros de forma totalmente ilegal."

Garrigos também recordou que o presidente americano, Barack Obama, se comprometeu a fechar a instalação, localizada em Cuba.

Um de seus prisioneiros, Saber Lahmar, que ficou em Guantánamo por oito anos e agora é um homem livre, diz que o isolamento, a humilhação e a tortura deixarão, para sempre, uma "mancha negra" em seu coração.

Relatos de um ex-prisioneiro

Ele acusou a existência de "drogas em minha comida" o que, segundo o ex-prisioneiro argelino, o impedia de dormir. Além disso, afirma que as luzes fluorescentes estavam frequentemente acesas em sua cela de 2 m por 1,5 m, com ar condicionado gelado e trilha sonora de material pornográfico como música de fundo.

"Anos de tortura por nada", afirmou Lahmar, 42 anos, à AFP, em entrevista por telefone de Bordeaux, na França, onde reside desde que foi libertado por um tribunal federal americano.

Lahmar é um dos muitos presos que passaram pelo buraco negro legal da prisão militar localizada na base naval americana de Guantánamo, em Cuba, após os ataques de 11 de Setembro . Como muitos outros prisioneiros, teve negado o direito de se defender.

Ele foi entregue às autoridades americanas na Bósnia, junto a outros cinco argelinos suspeitos de prepararem um ataque contra a Embaixada dos Estados Unidos em Sarajevo. Quando ficou provado que as acusações eram infundadas, foi acusado de querer se unir as guerrilhas contrárias às tropas americanas no Afeganistão.

Em 2008, Lahmar ganhou uma apelação perante um tribunal de Washington para ser libertado e o tribunal determinou que não havia evidência de crimes ou de que o acusado fosse uma ameaça para os EUA. "Eu não fiz nada", afirmou à AFP Lahmar, um ex-professor de árabe que dirigia uma livraria em Sarajevo.

Quando chegou pela primeira vez à prisão de Guantánamo, em janeiro de 2002, lembra que lhe disseram: "Esqueça do mundo, da vida normal, esqueça tudo". O Campo V foi o mais duro, segundo as lembranças de Lahmar. "Era para as pessoas que não falavam nos interrogatórios", disse, descrevendo as torturas as quais foi submetido, incluindo privações de sono e de alimentos e exposição constante ao ruído de um motor em movimento, que foi colocado na porta de sua cela, mas que era guardado durante as visitas da Cruz Vermelha.

"Não podia caminhar, me mover, falar; estava proibido", contou o ex-prisioneiro, que também lembrou que os carcereiros o submetiam às vezes a descargas elétricas ou introduziam gás na cela durante 20 minutos todos os dias.

Depois foi levado a Campo Eco, que descreveu como um local de isolamento completo. "Durante um ano e meio não vi o sol", afirmou, lembrando que durante os interrogatórios o obrigavam a se sentar em um banco durante 18 horas seguidas. "Por trás disso há grandes pensadores", assegurou. "Quando não conseguiram conosco, começaram com o programa seguinte... mas não entendem que com a força não conseguirão nada", acrescentou.

Para Lahmar agora as consequências são psicológicas, não são perceptíveis, mas não o deixam virar a página. Inclusive os guardas concordavam com ele que não havia cometido nenhum crime, afirmou, já que eles lhe diziam que estava recluso com o objetivo de fornecer informação.

Embora tenha sido libertado, ainda precisa conhecer seus próprios filhos e reconstruir sua vida. "A única coisa que quero é que me deixem tranquilo", disse. "Ainda tenho uma mancha negra em meu coração. Para limpar essa mancha eles deveriam nos devolver todos os nossos direitos. Mas como?".

"Eles dizem que eu era um terrorista. Eles devem dizer ao mundo que eu não sou um terrorista."

Com AFP

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