Proteína verde fluorescente rende Nobel de Química a 3 cientistas

Anxo Lamela. Estocolmo, 8 out (EFE) - A descoberta e o desenvolvimento de uma proteína verde fluorescente, com aplicações revolucionárias nos campos da biomedicina e da farmácia, renderam hoje ao japonês Osamu Shimomura e aos americanos Martin Chalfie e Roger Y. Tsien o prêmio Nobel de Química 2008.

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As propriedades luminosas desta proteína (GFP, na sigla em inglês) se transformaram em uma das ferramentas mais usadas na biociência moderna e tornaram visíveis processos antes desconhecidos, como o desenvolvimento das células nervosas no cérebro e a propagação de células cancerígenas.

A observação da degeneração celular em pacientes com Alzheimer, das células que produzem insulina no pâncreas e das bactérias patógenas são outros dos múltiplos usos da GFP, que, ao permitir acompanhar os processos intracelulares, propicia o desenvolvimento de remédios mais eficazes e com menos efeitos colaterais.

Isso fez com que o Comitê Nobel comparasse, em sua explicação da decisão, a descoberta com a invenção do microscópio no século XVII.

A história da GFP começa no Japão do pós-guerra, quando um jovem professor assistente da Universidade de Nagóia, Osamu Shimomura, recebeu uma incumbência na qual tinham fracassado pesquisadores conhecidos dos Estados Unidos: investigar o que fazia brilhar na água um pequeno crustáceo chamado Cypridina.

Shimomura resolveu o problema em um ano, descobrindo que o brilho era causado por uma proteína. Com isso, foi recrutado para trabalhar na prestigiosa Universidade de Princeton (Estados Unidos).

Com seu mentor, Frank Johnson, o japonês se dedicou a investigar outro fenômeno luminescente, a água-viva Aequorea victoria, cujos extremos brilham com um sinal verde quando se agita, e, em 1962, conseguiu isolar a proteína que provocava o efeito, batizada de aequorina.

Por acaso, identificou na água-viva outra proteína que emitia uma fluorescência esverdeada com uma característica incomum: não precisava de outros aditivos para brilhar além de ser iluminada por luz ultravioleta ou azul. Era a primeira vez que alguém descrevia a GFP.

Shimomura continuou estudando nos anos seguintes as propriedades fluorescentes da proteína, mas o próximo passo determinante foi dado por Martin Chalfie, um neurobiólogo da Universidade de Colúmbia.

Chalfie trabalhava na época com o Caenorhabditis elegans, um nematódeo muito estudado em biologia.

Em um seminário sobre organismos bioluminescentes, ele ouviu falar da GFP e pensou que podia ser o instrumento ideal para agir como marcador genético do verme, já que os genes são descrições de proteínas.

Conectando o gene da GFP com os de outras proteínas, Chalfie poderia observar como eram ativados os interconectores genéticos das células e ver onde eram produzidas as diferentes proteínas.

A experiência terminou em 1994, demonstrando o valor da GFP como marcador genético luminoso.

A principal contribuição de Tsien foi ampliar a paleta cromática, com novas cores que brilham mais tempo e com mais intensidade, o que permite acompanhar diferentes processos biológicos ao mesmo tempo.

Com a ajuda da tecnologia DNA, Tsien trocou vários aminoácidos em diferentes partes da GFP, com o que essa podia absorver e emitir luz em outras partes do espectro, desenvolvendo novas variantes em ciano, azul e amarelo.

Graças a isto, os pesquisadores de hoje em dia podem marcar diferentes proteínas em distintas cores para estudar suas interações.

As descobertas de Shimomura, Chalfie e Tsien, somadas aos desenvolvimentos tecnológicos, permitiram aplicações em novos campos como a biotécnica, ajudando, por exemplo, a detectar arsênico em poços de água, um sério problema sanitário no Sudeste Asiático.

Outros cientistas também modificaram organismos com a ajuda da GFP para brilhar na presença de metais pesados, como o cádmio ou o zinco e o explosivo TNT. A proteína é encontrada inclusive em brinquedos que brilham no escuro.

Os três pesquisadores dividirão, em partes iguais, as dez milhões de coroas suecas (US$ 1,4 milhão) com as quais está dotado o Nobel de Química, assim como os outros prêmios. EFE alc/db

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