Marta Hurtado. Mumbai (Índia), 14 mar (EFE).- Sob a sombra do caos e da pobreza de Mumbai, integrantes dos 148 núcleos de prostituição masculina desta cidade indiana se organizam para evitar os abusos policiais, a violência dos clientes e o perigo da aids.

"Eu uso preservativos em todas as situações e com todos os clientes. Se não querem, dou um jeito de colocar no final, é minha vida que está em jogo", afirma Ramesh, de 28 anos, que se prostitui há mais de uma década.

Ramesh trabalha na estação de trem de Andheri e participa do programa da ONG The Humsafar Trust, uma das organizações pioneiras na Índia na luta pelos direitos dos homens que exercem a prostituição com outros homens.

A The Humsafar Trust conscientiza-os dos riscos da aids e também os ensinam legislação, para que conheçam seus direitos.

"Antes a Polícia abusava muito mais de nós. Agora, como se dão conta de que conhecemos nossos direitos, nos respeitam mais", afirma Ramesh, ao revelar que "muitos também são clientes".

A Organização Nacional de Luta contra a Aids estima que 2,3 milhões de homens que praticam sexo com homens correm o risco de contrair o vírus do HIV.

O homossexualismo era considerado crime pelo Código Penal indiano até o ano passado, quando o Tribunal Superior de Délhi opinou que a penalização de atos homossexuais viola os direitos fundamentais da Constituição.

A The Humsafar Trust é uma das organizações receptoras de uma doação de US$ 21 milhões que serão entregue nos próximos anos pelo Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária.

Ramesh entrou em contato com essa ONG há quase cinco anos. Desde então, transmite uma mensagem de autoproteção entre seus companheiros.

"Coordeno o grupo para que todos estejamos conectados por meio do celular e possamos ajudar imediatamente quem precisar", explica Ramesh.

A maioria destes homens exerce outra profissão durante o dia, e se prostituem à noite para obter uma renda extra. É o caso de Aslan.

"Eu faço desta forma: se eu gosto do rapaz, faço por prazer, mas cobro igual. Se não gosto, é um trabalho como outro qualquer. Tenho que sustentar minhas duas irmãs solteiras e minha mãe", diz Aslan.

O preço sempre é negociável, depende do tipo de programa e da oferta e da demanda, mas oscila entre US$ 2 e US$ 20.

Ashok Row Kavi, fundador da The Humsafar Trust, diz que "exercem (a prostituição) por razões financeiras, porque precisam sustentar suas famílias", mas, "agora que estão mais protegidos, se sentem menos frágeis e mais fortes".

Krishna é o líder de um grupo de 50 jovens que trabalham na praia de Juhu. Ele começou a se prostituir há dez anos e, aos poucos, foi chamando meninos de seu povoado, no interior do país, para que viessem "ganhar a vida".

"Nenhum deles foi enganado, sabiam para o que estavam vindo.

Juntos, nos protegemos, e todos são conscientes dos riscos da aids e de como evitá-los", explicou Krishna, também membro da The Humsafar Trust.

Estes são mais jovens e mais vulneráveis do que os rapazes que se prostituem na estação de Andheri, segundo os ativistas da ONG. Além disso, em Juhu, eles não confirmam sua homossexualidade, como fazem os primeiros.

No entanto, todos têm um ponto em comum: quando suas famílias exigirem que se casem, o farão sem titubear. EFE mh/bba

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