Proposta de novas sanções fracassará, diz Irã

Teerã afirma que potências mundiais perdem credibilidade ao insistir com novas sanções após acordo alcançado por Brasil e Turquia

iG São Paulo |

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Chanceler Celso Amorim, Lula, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad e o premiê turco, Tayyip Erdogan, comemoram acordo na segunda-feira
O vice-presidente iraniano e chefe da agência atômica do país, Ali Akbar Salehi, afirmou nesta quarta-feira que a proposta de novas sanções contra o Irã por seu programa atômico fracassará, afirmando que as grandes potências perdem credibilidade e ficam "desacreditadas" ao persistir com a ideia apesar do acordo alcançado pelo Brasil e Turquia na segunda-feira, pelo qual o Irã se compromete a trocar combustível nuclear na Turquia.

"A questão das sanções ficou para trás. O projeto de resolução contra o Irã apresentado na terça-feira na ONU representa a última tentativa dos ocidentais", declarou Salehi. "Pela primeira vez sentem que os países emergentes podem defender seus direitos no cenário internacional sem a necessidade de recorrer às grandes potências, e isso é algo que elas têm dificuldade de aceitar", acrescentou.

O chefe da agência nuclear iraniana disse ver poucas chances de sucesso na aprovação de uma resolução com novas sanções. “Deveríamos ser pacientes, porque eles não terão sucesso", afirmou Salehi. “Acho que há algumas pessoas racionais entre eles que os impedirão de tomar esse caminho irracional”, disse ele.

Outro importante membro do governo iraniano, Mojtaba Samareh-Hashemi, assessor-sênior do presidente Mahmoud Ahmadinejad, afirmou que uma resolução da ONU por sanções não teria legitimidade.

As declarações foram feitas um dia depois de os EUA teriam enviado ao Conselho de Segurança (CS) da ONU um esboço de resolução para a quarta rodada de sanções contra o país persa por seu programa nuclear, que a comunidade internacional suspeita ter fins militares. O Irã rejeita a acusação, afirmando que seu objetivo é apenas produzir energia.

Segundo a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, o esboço da nova resolução foi alcançado entre os membros permanentes do CS (EUA, Grã-Bretanha, Rússia, China e França) e a Alemanha. A Rússia e China , que durante meses hesitaram em concordar com a busca de nova punição contra o país na ONU, confirmaram nesta quarta-feira seu apoio ao documento.

"A Rússia confirma que o acordo dentro do grupo 5+1 (Rússia, Estados Unidos, França, Reino Unido, China, Alemanha) sobre o projeto de resolução é mantido", diz um comunicado do Ministério de Relações Exteriores russo .

A confirmação da participação chinesa foi feita pelo embaixador do país na ONU, Li Badong, que disse que o apoio de Pequim é condicionado ao não uso da força para resolver o impasse e ao respeito ao direito de outros países de manter relações econômicas com Teerã.

AFP
Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, no Senado ao lado de secretário de Defesa Robert Gates (dir.) e do presidente do Estado-Maior Conjunto Michael Mullen

Repercussão internacional

Os acontecimentos relacionados ao Irã foram tema de vários artigos nesta quarta-feira em diversos jornais estrangeiros.

Um editorial publicado pelo jornal britânico The Guardian afirma que a resolução proposta pelos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU prevendo sanções contra Teerã é uma "bofetada nos esforços de negociação" das potências emergentes. O texto defende o acordo negociado na segunda-feira por Brasil e Turquia com o Irã. Para o jornal, o entendimento turco-brasileiro é "o mais perto que chegamos até agora do início de uma resolução" para a questão nuclear iraniana.

"A Turquia está emergindo como uma importante potência diplomática no Oriente Médio. Turquia e Brasil, o outro mediador do acordo, são membros não-permanentes do Conselho de Segurança e signatários do tratado de não-proliferação. O Japão, igualmente, compartilha o comprometimento de encontrar uma solução diplomática nesse impasse com o Irã. Juntas, essas nações assumiram o papel de mediadores honestos abandonados pela Grã-Bretanha, a França e a Alemanha", disse o texto.

Na França, o matutino Le Figaro questiona por que a manobra iraniana "uniu as grandes potências" em torno da resolução americana, incluindo países tradicionalmente contrários às sanções, como Rússia e China. "A realidade é que a Rússia e a China não gostaram nem um pouco que o Brasil e a Turquia  fizessem um acordo nuclear com Teerã sem se dar ao trabalho de consultar Moscou e Pequim de antemão", opina o jornal. "Chocados por uma diplomacia turco-brasileira tão desenvolta no conteúdo quanto na forma, os chineses e russos cederam (à proposta americana)."

Já alguns dos principais jornais americanos fizeram duras críticas ao Brasil e à Turquia por patrocinar o acordo com o Irã. O The New York Times aponta que ambos os países "estão ávidos para desempenhar um maior papel internacional" e "ávidos para evitar um conflito com o Irã". "Respeitamos essas ambições. Mas, como todos, eles foram manipulados por Teerã", afirma o editorial, lembrando que desde 2006 o governo iraniano "desafia as reivindicações do Conselho de Segurança de suspender seu programa nuclear".

Para o NYT, a nova resolução "provavelmente não é dura o suficiente para fazer Teerã mudar de ideia. Mas o fato de a Rússia e a China terem concordado deve causar nervosismo entre alguns atores dentro do dividido governo iraniano." "Brasil e Turquia deveriam se unir às outras potências e votar a favor da resolução do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo antes disso, deveriam voltar a Teerã e pressionar os mulás por um acordo crível e por negociações sérias."

Obama isolado

Mais incisivo, o diário americano Wall Street Journal diz que o governo brasileiro aproveitou a boa vontade de Washington para entrar na negociação iraniana e "triangular sua própria solução diplomática". Para o diário financeiro, o acordo de Brasil e Turquia com o Irã foi um "fiasco" para a diplomacia Obama.

"O governo tentou se recuperar rapidamente anunciando, no dia seguinte, que havia chegado a um acordo com a Rússia e a China para sanções na ONU", afirma o editorial. "O duplo constrangimento é que os EUA incentivaram a diplomacia de Lula como uma maneira de angariar apoio para uma resolução de sanções na ONU. Em vez disso, Lula usou a abertura para triangular sua própria solução diplomática. Assim, em vez de EUA e Europa colocarem o Irã contra a parede, foi Ahmadinejad quem colocou Obama no canto."

Para o jornal, a política de "mão estendida" para o Irã resultou em que o Irã está hoje menos isolado diplomaticamente, e mais perto de desenvolver uma bomba atômica. "Israel terá de considerar seriamente suas opções militares."

*Com BBC e AFP

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