Programa iraniano pode levar a guerra em um ano, diz especialista

Ao iG, diplomata americano Mark Fitzpatrick alerta para risco de conflito se país persa ultrapassar limite tolerado por Israel

iG Rio de Janeiro |

O avanço do programa nuclear do Irã pode levar a uma guerra com Israel dentro de um ano, na opinião de Mark Fitzpatrick, integrante do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), do Reino Unido, e ex-secretário-assistente para não-proliferação do Departamento de Estado americano. Ele está no Rio para participar da VII Conferência do Forte de Copacabana de Segurança Internacional e segue amanhã para a Argentina.

AFP
Mahmoud Ahmadinejad na cidade iraniana de Bojnourd. O líder iraniano não reconhece o direito de Israel existir (3/11/2010)
Em entrevista ao iG , Fitzpatrick disse que existe o perigo de o Irã ultrapassar o limite tolerado por Israel em relação ao programa nuclear iraniano. O estoque atual do Irã de urânio pouco enriquecido é de cerca de 3 mil quilos, de acordo com o pesquisador – o suficiente para fabricar duas bombas. Ele estima que se o país chegar ao estoque capaz de produzir quatro ou cinco armas nucleares, Israel pode lançar um ataque, por se sentir ameaçado.

“Acho que haverá uma guerra se eles ultrapassarem o limite de Israel. Em algum momento, Israel vai decidir que o suficiente é o suficiente. Pode acontecer em um ano, um ano e meio. Depende do tolerado por Israel, que, em algum momento pode decidir atacar", explicou Fitzpatrick. "O Irã pode ultrapassar esse limite sem se dar conta, este é o meu maior temor. Que um erro de cálculo resulte em guerra”, afirmou o diplomata, que dirige o programa de não-proliferação e desarmamento do instituto.

Ahmadinejad

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, não reconhece o direito de Israel existir e contesta a existência do Holocausto, quando morreram cerca de 6 milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial.
Na opinião do diplomata americano, a melhor saída é a atual política de contenção, uma vez que o Irã não aceita ser inspecionado ou ter a sua produção de urânio limitada. Apesar de já conseguir enriquecer urânio a 20%, o país ainda não tem capacidade para transformar urânio em combustível para uma bomba atômica, que necessita de um enriquecimento a 90%.

“Tensão é muito melhor do que guerra. Se o Irã fizer o que a Coreia do Norte fez, expulsar inspetores, enriquecer urânio acima de 60%, haverá um ataque de Israel. Acredito que, lentamente, eles aumentarão sua produção. A Coreia do Norte fabricou seis bombas antes de romper com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Para eles, quatro pode ser o limite. O problema de um ataque militar é que as consequências são imprevisíveis”, afirmou.

Vírus

Para Fitzpatrick, o poderoso vírus Struxnet que atingiu cerca de 30 mil computadores industriais no Irã – inclusive os da equipe que trabalha na primeira usina nuclear, Bushehr, semanas antes do início de operações – parece ter sido sabotagem industrial. “Acho provável que tenha sido introduzido por algum país com interesse na questão nuclear iraniana, como sabotagem industrial”, disse.

O diplomata não acredita em um acordo em curto ou médio prazo, por conta das resistências tanto do Irã e dos Estados Unidos. Segundo ele, a mediação de um acordo para a troca de combustível nuclear do Irã com o exterior, pelo Brasil e pela Turquia – rejeitada pelo governo dos EUA –, teve avanços mas não funcionou, entre outras coisas, porque faltou comunicação em um nível mais operacional e menos diplomático, o que levou a “desinformação” e à inclusão de itens inviáveis.

“É preciso reconhecer que houve um avanço, de fazer o Irã aceitar a troca simultânea, algo que não admitira até então. Esse precedente pode ser usado no futuro, em negociações. O Irã concordou com o precedente de enviar para fora combustível”, observou Fitzpatrick.

Para ele, porém, o movimento do Brasil, que votou contra as sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU dificultaria uma nova mediação do país na questão. “Qualquer mediador precisa ter a confiança dos dois lados. Ficou um mal-entendido residual. Estados Unidos e Europa reagiram da mesma maneira em relação ao Brasil, sobre a questão do Irã.”

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