Programa de artes marciais ensina marines americanos a matar

César Muñoz Acebes. Base Militar de Quantico (EUA), 15 jun (EFE).- O programa de artes marciais dos marines (fuzileiros navais) americanos usa movimentos de judô, caratê e jiujitsu, mas seu objetivo não é a defesa pessoal ou o exercício físico, e, sim, a morte do adversário.

EFE |

Trata-se da única arte marcial em que os lutadores carregam de 37 a 45 quilos, o peso do equipamento de combate, e, ainda assim, têm mobilidade para desarmar alguém ou se esquivar de um ataque com baioneta.

"O programa é muito simples e eficiente. Os movimentos foram condensados de modo que possam ser realizados enquanto um grande volume de material é carregado", disse o sargento Joshua Ott, de 24 anos, um dos instrutores do programa.

Numa tarde de junho, numa área de treino sob um toldo na base militar americana de Quantico, onde todos os marines são formados, o sargento Michael Jones tentou tirar de Ott seu inseparável fuzil M-16.

Ott repeliu o colega com um forte chute no peito e, na segunda tentativa de Jones, derrubou-o com uma rasteira.

"Me ouça. Olhe para o outro lado. Coloque as mãos nas costas", gritou Ott, enquanto apontava para Jones um fuzil de assalto.

Os marines integram a única corporação militar americana que oferece treinamento de artes marciais a todos os seus soldados, atualmente 202 mil.

É um programa sem competições nem torneios, porque, embora use os movimentos de outras especialidades, seu propósito é muito diferente.

"Não é um esporte. O objetivo é matar", disse o tenente-coronel Joseph Shusko, diretor do Programa de Artes Marciais do Corpo de Marines (MCMAP, na sigla em inglês), que os soldados chamam de "micmap".

Outro de seus apelidos é "semper fu", um trocadilho com as palavras "kung fu" e "semper fi" (do latim "semper fidelis", que significa sempre fiel, o lema dos marines).

"Seu 'dogi' não é um uniforme branco, mas camuflado, e seu 'dojo' é qualquer lugar onde haja um combate", disse Shusko.

Na realidade, os marines treinam agora em um "dojo" feito com pedaços de borracha, para amortecer as quedas e reduzir as lesões, frequentes quando o programa começou a funcionar.

Suas armas são a faca/baioneta que cada marine carrega, o leal M-16 e qualquer "arma ocasional", ou seja, até uma pedra ou uma barra de ferro que esteja à mão no campo de batalha.

O MCMAP nasceu em 1999 por iniciativa do ex-general James Jones, então comandante dos Marines e agora conselheiro de Segurança Nacional do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

O programa consolida a tradição de combate corpo a corpo dos marines com baioneta e espada desde sua criação no século XVIII, com outros tipos de treinamento usados desde então em um sistema formal e codificado.

Ele consta de 180 técnicas que os marines aprendem a fazer quase que com os olhos fechados, com o objetivo de que, inclusive feridos ou em um momento de pânico, seus músculos se movimentem por instinto.

"Nós pegamos todos os elementos que podemos de outras artes marciais e os adaptamos para que sirvam às necessidades do Corpo de Marines", disse o sargento Steven Richardson, de 24 anos, outro dos instrutores.

Essas necessidades evoluíram com o tempo e, embora ainda seja orientada ao combate, o programa também inclui movimentos que não necessariamente levam à morte do oponente, como técnicas para o controle de multidões e para seu uso em missões como capacetes azuis da ONU.

"O programa encanta os marines, encanta-os lutar e fazer seu trabalho", disse o sargento Shurron Thomson, um homem de 23 anos do tamanho de um armário que pratica artes marciais desde que tinha quatro.

O treinamento físico se complementa com um estudo de cultura marcial, incluindo a dos espartanos, dos apaches e dos zulus, e algumas sessões sobre cidadania, honra e responsabilidade para garantir que essas "armas humanas" não desviem de seu objetivo.

"Ensinamos a eles como matar, mas queremos que usem a força de forma responsável", disse Shusko. EFE cma/ma

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