Carlos Werd Buenos Aires, 5 ago (EFE).- A busca na Argentina pelo criminoso de guerra alemão Aribert Heim, conhecido como Doutor Morte por suas práticas letais com prisioneiros judeus, reabriu a polêmica sobre a ajuda adquirida no país por notórios nazistas foragidos, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Seis décadas após fugir da Alemanha, Heim - que injetava gasolina no coração dos prisioneiros do campo de concentração de Mauthausen - parece estar cercado em algum lugar da Patagônia, o vasto território que se estende pelo sul da Argentina e do Chile, segundo o Centro Simon Wiesenthal.

Caso realmente fosse ele, o "Doutor Morte" se somaria à lista de criminosos nazistas refugiados, após a queda do nazismo, na América do Sul, especialmente na Argentina.

"Juan Domingo Perón abriu generosamente as portas aos nazistas e os protegeu, mas essa atitude não se limitou ao seu Governo, mas foi uma política de Estado até 1983", destacou Sergio Widder, representante para a América Latina do Centro Wiesenthal.

Investigadores consultados pela Agência Efe, no entanto, concordaram que a Argentina começou a saldar esta "dívida" com a humanidade nos seus últimos 25 anos de democracia, nos quais foram capturados e extraditados quatro criminosos de guerra e outro morreu quando estava a ponto de ter a mesma sorte.

Segundo o Centro Simon Wiesenthal, cerca de 300 criminosos de guerra e milhares de colaboradores do Terceiro Reich chegaram à Argentina no fim desta guerra.

Este número supera amplamente os 180 criminosos nazistas contabilizados pela Comissão para o Esclarecimento das Atividades do Nazismo na Argentina (Ceana) depois que o Governo de Carlos Menem disponibilizasse o acesso aos arquivos oficiais.

O primeiro a ser encontrado na Argentina foi Adolf Eichmann, que ingressou no país em 1950 com um passaporte falso emitido pela Cruz Vermelha.

Em uma operação cinematográfica, Eichmann, um dos responsáveis pelo extermínio judeu, foi seqüestrado em 1960 nos arredores de Buenos Aires pelos serviços secretos israelenses, que o levaram clandestinamente em um avião oficial que o conduziu a Jerusalém.

Em 1966, Gerhard Bohne, chefe do programa de eutanásia do regime de Adolf Hitler, foi o primeiro criminoso de guerra extraditado pela Argentina à Alemanha.

Em 1985, dois anos depois do final da ditadura militar argentina, a Interpol deteve em Buenos Aires Walter Kutschmann, antigo chefe da Gestapo na Polônia, que morreu um ano depois na prisão enquanto era tramitada sua extradição para a Alemanha.

Córdoba (centro do país) foi em 1987 palco da detenção do ex-comandante da SS Josef Schwammberger, devolvido à Alemanha em 1990 e condenado à prisão perpétua em 1992, 12 anos antes de sua morte.

Em 1994, após confessar à televisão americana sua participação em massacres de civis, o ex-capitão das SS Erich Priebke foi detido em Bariloche.

Após um intrincado processo judicial, em 1995, a Argentina concedeu sua extradição à Itália, onde foi condenado à prisão perpétua pelo fuzilamento de 335 civis italianos e 75 judeus no massacre das Fossas Ardeatinas (1944).

Em El Bolsón, na Patagônia, viveu até a morte, em 2000, o ex-capitão Herbert Habel, que em uma nota para imprensa reconheceu que recuperou sua verdadeira identidade graças às ações de Perón.

Entre os célebres criminosos nazistas que passaram pela Argentina estava Josef Mengele, responsável pelos desumanos experimentos em Auschwitz.

Mengele chegou ao país em 1949 com identidade falsa, embora anos mais tarde tivesse conseguido um documento da Polícia Federal argentina com o nome de José Mengele.

Em 1959, a Alemanha pediu sua extradição, mas as demoras do Governo argentino lhe permitiram fugir, primeiro para o Paraguai e depois para o Brasil, onde morreu afogado em 1979.

A Argentina recebeu também uma grande quantidade de dirigentes pró-nazistas de outros países europeus, entre eles Radislaw Ostrowsky, Ante Pavelic e Ferdinand Durcansky, os equivalentes de Hitler nas atuais Belarus, Croácia e Eslováquia, respectivamente.

EFE cw/bm/rr

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