Processo de paz na Irlanda do Norte uniu conservadores e trabalhistas

Viviana García Londres, 9 abr (EFE).- O Acordo da Sexta-Feira Santa, que ajudou a pôr fim a um dos conflitos mais sangrentos do século XX, foi a base de um processo de paz que começou com um Governo britânico conservador e terminou com o trabalhista de Tony Blair.

EFE |

Os enfrentamentos entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, que começaram no final da década de 1960 por aspirações políticas muito distintas, se exacerbaram em 1993 por causa de uma série de atentados perpetrados pelo Exército Republicano Irlandês (IRA) e os grupos paramilitares unionistas na província.

Diante dessa situação, o então primeiro-ministro do Reino Unido, John Major, e seu homólogo irlandês, Albert Reynolds, decidiram unir forças para buscar uma forma de acabar com a violência sectária.

Tinha início então um longo caminho marcado por obstáculos, avanços e retrocessos, mas por meio do qual os políticos mostravam determinação em acabar com mortes e destruição na Irlanda do Norte.

Em dezembro de 1993, Major e Reynolds assinaram em Londres a chamada "Declaração de Downing Street", que convidava pela primeira vez o Sinn Féin, braço político do IRA e defensor da anexação da província do Ulster à República da Irlanda, a sentar-se em uma mesa de negociação, desde que o grupo terrorista renunciasse à violência.

A oferta foi muito tentadora para Gerry Adams, líder do Sinn Féin. Tanto que ele trabalhou junto com o então "número um" do Partido Social Democrata e Trabalhista do Ulster (SDLP) John Hume para convencer o IRA a declarar "cessar-fogo".

A primeira trégua do IRA veio em 31 de agosto de 1994, e foi recebida com muito entusiasmo na Irlanda do Norte, onde grande parte da população saiu às ruas para comemorá-la, enquanto Londres e Dublin viam os primeiros resultados de sua aposta pela paz.

No entanto, as promessas contidas na Declaração de Downing Street pareciam estar longe de serem cumpridas. Isso porque o Governo britânico passou a sofrer mais pressão de blocos norte-irlandeses favoráveis à permanência da província no Reino Unido.

Diante da ausência de progressos, o IRA rompeu sua trégua em 9 de fevereiro de 1996 com um grande atentado na City de Londres (centro financeiro da cidade), símbolo do poder econômico britânico.

Com esse ataque, o Sinn Féin teve retirada a oferta de diálogo.

Tiveram início na ocasião conversas políticas entre todos os partidos da Irlanda do Norte, mas sem a legenda republicana.

O partido de Gerry Adams teve de esperar pela chegada ao poder no Reino Unido do trabalhista Tony Blair, em maio de 1997, para assistir ao anúncio de um novo convite nas negociações multilaterais.

A arrasadora vitória de Blair nas urnas, que acabou com quase 18 anos de mandato conservador, ajudou a impulsionar outra vez o estagnado processo de paz.

O IRA declarou uma segunda trégua em 19 de julho de 1997, com Adams tentando negociar o futuro da Irlanda do Norte com as principais legendas locais, entre elas o Partido Unionista do Ulster (UUP, até então majoritário), liderado por David Trimble.

No entanto, os unionistas radicais, que tinham como referência o reverendo Ian Paisley, do Partido Democrático Unionista (DUP), desconfiavam do Sinn Féin e não acreditavam que o IRA tivesse como compromisso o fim da violência.

Apesar de tudo, e após longas conversas, que contaram com a intervenção do ex-senador americano George Mitchell e até com uma ligação telefônica do então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, os partidos envolvidos assinaram, em 10 de abril de 1998, um histórico acordo de paz.

O pacto, que passou a ser conhecido como Acordo da Sexta-Feira Santa, não supôs o fim do processo.

Vários anos se passariam até que obstáculos fossem realmente superados, como o fim do uso de armas pelo IRA, a retirada de bases de controle militares na Irlanda do Norte e a supressão do Royal Ulster Constabulary (RUC) - antiga Polícia Real do Ulster.

Também haveria posteriormente o perdão público de Blair aos chamados "Quatro de Guildford" - Gerard Conlon, Patrick Armstrong, Paul Hill e Carole Richardson - por um atentado do IRA que nunca cometeram e pelo qual passaram mais de dez anos na prisão.

O equívoco judicial foi retratado no cinema, no filme "Em Nome do Pai", premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim (1994) e indicado ao Oscar.

Com as mudanças, o processo político culminou na formação de um Governo autônomo de poder compartilhado entre dois adversários históricos, o unionista Ian Paisley e o republicano Martin McGuinness.

Formado o novo Governo conjunto norte-irlandês em 8 de maio de 2007, Blair deu por concluído o processo, e pouco depois, em 27 de junho do mesmo ano, o dirigente retirou-se formalmente do poder no Reino Unido. EFE vg/fr

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