Processo de 5 dias decide futuro de austríaco que abusou da filha por 24 anos

(corrige título) Antonio Sánchez Solís. Sankt Pölten (Áustria), 16 mar (EFE).- Josef Fritzl se sentou hoje no banco dos réus em um processo no qual responde por trancar e violentar reiteradamente durante 24 anos a filha Elisabeth, em um julgamento rápido, no qual a vítima é a única testemunha de acusação e cujo veredicto é esperado para sexta-feira.

EFE |

Desta forma, o drama de Elisabeth e dos sete filhos que concebeu devido ao abuso sexual sofrido pelo pai chega à Justiça austríaca entre uma forte pressão midiática e rígidas restrições para evitar o vazamento de detalhes sórdidos e proteger, assim, a intimidade das vítimas.

Com um paletó cinza-claro e o rosto escondido por um fichário azul que carregava com as mãos trêmulas, Fritzl entrou na sala principal da Audiência Provincial de Sankt Pölten, em sua primeira aparição pública desde que foi detido, em abril do ano passado, após o caso vir à tona.

Ali, o aposentado de 73 anos escutou a folha de acusações contra si, que incluem escravidão e assassinato, já que a Promotoria entende que ele foi o responsável pela morte, em 1996, de um dos gêmeos que concebeu com a filha.

A acusação pode custar ao austríaco uma sentença de prisão perpétua.

Com apenas um fio de voz, o acusado se declarou "inocente" destas duas acusações, mas admitiu as de "incesto" e "privação de liberdade", já que trancafiou, desde o nascimento, três dos filhos que teve com Elisabeth - outras três crianças foram viver com ele e a esposa na casa.

Com um ambíguo "parcialmente culpado", Fritzl se referiu às acusações de estupro e coação grave.

Em sua dramática alegação inicial, a promotora Christiane Burkheiser descreveu ao júri a extrema umidade e a estreiteza do porão sem luz nem ventilação natural onde mantinha a filha e filhos-netos.

"Luz apagada, abusos sexuais, luz acesa, mofo", explicou a advogada de acusação ao descrever a vida cotidiana de Elisabeth.

Burkheiser não só repreendeu Fritzl por seus atos, mas assegurou que "não deu mostras de arrependimento".

A promotora lembrou que, nos primeiros nove anos de cativeiro, Elisabeth viveu em 18 metros quadrados, nos quais ficou grávida e deu à luz três filhos.

Para o primeiro dos partos, em 1988, teve a ajuda de "uma manta não esterilizada, tesouras sujas e um livro de preparação ao parto", relatou.

Burkheiser responsabilizou Fritzl pela morte do bebê, por ignorar os pedidos de ajuda da filha aos problemas respiratórios da criança.

"Isso é assassinato por omissão de socorro", afirmou a promotora.

Por sua vez, o advogado de defesa, Rudolf Mayer, tentou desfazer a imagem de "monstro" que, afirmou, a imprensa fez de seu cliente e assegurou que Fritzl queria apenas criar uma segunda família.

Mayer lembrou ao júri de sua obrigação de se ater aos fatos e de "deixar os sentimentos de fora" para que o processo seja justo.

Ele afirmou que, se seu cliente tivesse buscado só satisfação sexual, não teria tido filhos com Elisabeth ou teria matado todos eles.

Da mesma forma, argumentou que em favor do réu fala também o fato de que, em abril do ano passado, ele levou ao hospital a filha mais velha que teve com Elisabeth, gravemente doente, apesar de saber que isso revelaria a verdade sobre sua vida dupla.

O resto do processo e até a leitura do veredicto transcorrerá a portas fechadas, espreitados pelos jornalistas de muitos países que foram à cidade austríaca para cobrir o processo.

Para decidir se Fritzl é culpado ou inocente, os oito membros do júri contam principalmente com o depoimento da própria Elisabeth, gravado em 11 horas de declarações sobre seus 24 anos de drama, e do qual escutaram hoje uma primeira parte.

Ela será a única testemunha em um processo no qual a esposa e os demais filhos do acusado se negaram a depor.

Além desse depoimento, o júri escutará a declaração de três ou quatro peritos, entre eles um psiquiatra, para determinar o estado mental de Fritzl, e de um neonatologista, que analisará a possível responsabilidade do acusado na morte do bebê.

O veredicto deve ser anunciado na quinta ou na sexta-feira. EFE as/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG