Problemas na Argentina reavivam fantasmas de 2001

Protestos nas ruas, panelaços e incertezas políticas e econômicas estão reforçando o temor dos argentinos de que a histórica crise que afetou o país em 2001 possa se repetir. No fim de semana, a revista argentina Notícias publicou uma capa inspirada na pior crise que o país já viveu.

BBC Brasil |

Com o título 100 días de anarquía. El Imperio de la estupidez ("Cem dias de anarquia. O império da estupidez"), o semanário relata o conflito entre o governo e o setor ruralista e relembra uma capa semelhante, publicada em 2001.

"Há sete anos, Notícias fez uma capa com um desenho atípico como o de agora. Na anterior, antecipamos o default político. E agora (...) para advertir sobre a loucura generalizada que pode nos conduzir ao vazio."
Os paralelos têm sido feitos com cada vez maior freqüência pela mídia e por políticos do país. Na semana passada, o analista do jornal Clarín, Eduardo van der Kooy, escreveu: "Os fantasmas de 2001 voltaram" e o jornal Perfil também publicou uma capa com o título Anarquia e fazendo comparações.

Em uma manifestação no Congresso Nacional de prefeitos da Província de Santa Fé, onde a agropecuária é o carro-chefe da economia, o prefeito Fernando Fisher, da cidade de Armstrong, também invocou o fantasma da crise.

"Essa é uma rede catastrófica. Os fazendeiros pararam, os caminhoneiros pararam e agora empresas e pequenos negócios começam a suspender os empregados (...). Por favor, façam alguma coisa ou vamos repetir o caos de 2001". Fisher é do Partido Justicialista (PJ), principal base de apoio ao governo.

Panelaços, protestos nas ruas e uma profunda crise política foram alguns dos fenômenos que antecederam o colapso econômico de 2001, que levou à queda do então presidente Fernando de la Rúa.

Mau humor
Para Eduardo van der Kooy, o paralelo entre presente e passado não pode ser traduzido em números.

"A semelhança (com 2001) está no crescente mau humor da sociedade (...) com o conflito entre o governo e o setor rural que a presidente e (seu marido) Nestor Kirchner deixaram fluir com imprudência e escassa responsabilidade", escreveu ele.

Uma das principais medidas desse humor é o índice de popularidade - ou impopularidade - da presidente Cristina Kirchner. Duas pesquisas de opinião divulgadas na semana passada - das empresas de pesquisa Poliarquia e da Giacobbe e Associados - revelaram que 20% do eleitorado fazem uma avaliação positiva do governo. Ela foi eleita em dezembro passado com 45% dos votos.

Os índices de Cristina Kirchner são comparados atualmente aos de Fernando de la Rúa, que após um ano à frente da Casa Rosada tinha 15% de aprovação. Cristina, porém, tem a vantagem de contar com uma maioria no Congresso que De la Rua não tinha.

Para alguns argentinos, após quase seis anos de crescimento e estabilidade, a crise atual evoca lembranças da incerteza e imprevisibilidade de 2001.

É o caso de Maria Lily Lorenzo, que tem uma clínica de beleza em Buenos Aires. "Não é possível que, quando a gente pensa que tudo está indo bem, tem que acontecer alguma coisa. Será que não podemos viver num país calmo, normal, previsível?"
Ela contou que decidiu congelar o preço da limpeza de pele, apesar da escalada da inflação, já que as clientes estão "assustadas" e começaram a adiar o cuidado com a pele.

Semelhanças e diferenças
Além do clima de protestos e enfrentamento político, as contas públicas e a saída de dólares do país reforçam as memórias negativas.

Segundo dados oficiais, a dívida pública já é superior à de 2001 e a retirada de capitais também. Entre junho de 2007 e maio deste ano, US$ 19,9 bilhões saíram do país, de acordo com consultorias privadas, que se basearam em dados oficiais. Entre o terceiro semestre de 2001 e o segundo semestre de 2002, a saída foi de US$ 18,7 bilhões.

Apesar desses dados, para vários analistas a comparação entre o momento atual e os problemas do começo da década é imperfeita.

A atual crise começou com uma ação pontual. Em março, o governo Kirchner aumentou os impostos sobre exportações de grãos com a justificativa de tentar controlar os preços e de distribuir os ganhos do setor agrícola - o que mais cresceu nos últimos anos.

A medida gerou inicialmente uma queda-de-braço entre o setor ruralista e o governo. Mas a crise se espalhou, com desabastecimento causado por protestos de agricultores e caminhoneiros, que também reclamam do aumento dos custos dos combustíveis, e a ampliação da tensão política.

Os principais problemas da Argentina de 2008 são, ao menos em parte, diferentes do país de Fernando de la Rúa. Em 2001, o país vivia uma deflação e uma crise cambial, depois de o governo ter mantido o peso atrelado ao dólar por quase uma década. A falta de moeda estrangeira, aliada à falta de credibilidade do governo, levou a uma corrida bancária que quebrou a nação.

Ao contrário de De la Rúa, o governo de Cristina conta com reservas recordes no Banco Central - US$ 48 bilhões, embora estime-se que US$ 3 bilhões já tenham sido gastos para conter uma nova corrida ao dólar.

Além disso, há outras diferenças: o país sofre com falta de energia (em parte por causa do crescimento e por falta de investimentos) e com índices altos de inflação - os dados oficiais mostram uma taxa na casa dos 10%, mas alguns analistas discordam e apontam para uma alta de até 28%.

Para economistas como Miguel Kiguel, da Econviews, e Miguel Bein, da consultoria Bein, a economia argentina tem hoje base e instrumentos - como o superávit fiscal recorde - para não viver um novo terremoto econômico. O problema seria mais político do que econômico, embora exista um risco crescente de que os problemas de um campo afetem o outro.

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