Prisão de Ratko Mladic leva a euforia e frustração

Enquanto vítimas de Srebrenica comemoraram, moradores de vilarejo onde ex-general servo-bósnio nasceu protestaram contra detenção

iG São Paulo |

A prisão do ex-general servo-bósnio Ratko Mladic , nesta quinta-feira, levou a sentimentos opostos, que foram da euforia à frustração. Enquanto autoridades bósnias e vítimas do massacre de Srebrenica comemoraram, moradores da aldeia em que Mladic nasceu criticaram a detenção.

Em Sarajevo, autoridades e associações de vítimas do massacre de Srebrenica comemoraram a prisão  e acusaram o governo sérvio de saber onde ele estava escondido nos anos em que esteve foragido da Justiça. "A detenção de Ratko Mladic prova que as autoridades da Sérvia sabiam todo este tempo onde se encontrava", declarou Zeljko Komsic, membro croata da presidência tripartida da Bósnia-Herzegovina. 

O político se mostrou convencido de que as autoridades sérvias sabiam onde se escondia este ex-chefe militar servo-bósnio, assim como Radovan Karadzic, seu chefe político, que foi detido em 2008. "Ambos serviam (a Belgrado) como moeda de troca com a União Europeia (UE). Quando a UE colocou decididamente à Sérvia a detenção de Mladic como condição para as negociações de acesso, esta aconteceu", disse Komsic. 

AP
Manifestantes pró-Mladic saem às ruas protestar contra prisão de ex-general servo-bósnio, no vilarejo de Lazarevo, 50 km ao norte de Belgrado
A prisão de Mladic foi também aplaudida pela associação Mães de Srebrenica, região palco do massacre de muçulmanos e croatas-bósnios em julho de 1995, sob comando de Mladic. "Estou comovida e feliz. Nós, as mães, esperamos isso durante muito tempo. Lamento que não tenha acontecido antes, já que muitas mães morreram enquanto esperavam por esta detenção", disse Hatidza Mehmedovic, presidente da associação.

Na aldeia bósnia de Bozanovici, onde Ratko Mladic nasceu em 1943, moradores manifestaram sua consternação pela detenção do general acusado de crimes de guerra. "Não esperava que fosse detido. Sua única culpa é ter defendido o povo sérvio", declarou um homem identificado como Dusko, um militar retirado e parente de Mladic. 

Diversos moradores da região contaram ter ficado "impressionados" ao escutar as primeiras notícias sobre a prisão de Mladic.

Manifestantes pró-Mladic saíram às ruas protestar contra prisão de ex-general servo-bósnio, em vilarejos sérvios como Lazarevo, 50 km ao norte de Belgrado, e também na capital Belgrado.

Detenção

Vivendo sob um nome fictício em uma minúscula vila no norte da Sérvia, relata-se que Ratko Mladic , o fugitivo de guerra mais procurado da Europa, estava com duas pistolas, mas não ofereceu nenhuma resistência ao ser finalmente preso nesta quinta-feira, depois de 16 anos foragido.

AP
Homem é visto em frente de casa que imprensa sérvia indicou ser onde o ex-comandante Ratko Mladic foi encontrado na vila de Lazarevo
O ex-comandante do Exército servo-bósnio, de 69 anos, que parece ter um braço paralisado, não estava disfarçado e foi "muito cooperativo", disse a rádio B92 de Belgrado.

Mladic, que enfrenta acusações que incluem uma de genocídio pelo massacre de até 8 mil homens e meninos muçulmanos em Srebrenica , em 1995, foi capturado durante uma operação no amanhecer desta quinta-feira. Segundo vizinhos, a polícia cercou o local às 5h30 (0h30 de Brasília).

Três unidades especiais da agência de inteligência da Sérvia dirigiram-se a uma casa na vila de Lazarevo, a cerca de 80 km a norte de Belgrado, disseram fontes de segurança sérvias à agência AFP. A casa de tijolos amarelos de apenas um andar, com um pequeno jardim e uma cerca baixa - propriedade de um parente da mãe de Mladic - estava sob supervisão havia duas semanas, disse uma das fontes.

O ex-comandante, que tinha documentos em nome de Milorad Komadic, "parecia um idoso", disse à Associated Press Rasim Ljajic, um ministro do governo encarregado de cooperação com o tribunal de crimes de guerra da ONU.

"Qualquer um passaria por ele sem reconhecê-lo", explicou. "Estava pálido, o que poderia indicar que raramente se aventurava para fora da casa - um razão provável de por que passou despercebido." Segundo autoridades, a prisão de Mladic só foi possível por uma denúncia anônima.

A operação para prendê-lo foi tão tranquila que não incomodou a vizinhança local. "Eles nem nos acordaram", disse um residente de Lazarevo. Ele e outros garantem que não sabiam que ele estava escondido na localidade e nem sequer o conheciam pelo nome falso que usava.

O prefeito da pequena localidade de 2 mil habitantes, Radomir Stosic, garantiu que não conhecia ninguém com o nome de Komadic. Ele também disse que Mladic tem familiares na região e, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), ia com frequência ao povoado.

Apoio e proteção

Mladic escapou da prisão durante anos. Após o fim da guerra da Bósnia, Mladic voltou a Belgrado, onde usufruía de apoio e proteção do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic.

Ele vivia abertamente na cidade - visitando locais públicos, comendo em restaurantes caros e até participando de jogos de futebol. Até a prisão de Milosevic, em 2001. Alguns relatos dão conta de que ele buscou refúgio em seu bunker em Han Pijesak, não muito longe de Saravejo, ou em Montenegro. Outros dizem que ele permanecer em Belgrado ou nos seus arredores. Em vez disso, parece que ele vivia havia algum tempo em uma vila tranquila do norte da Sérvia.

Mladic foi o principal comandante do Exército servo-bósnio durante a Guerra da Bósnia, que deixou mais de 100 mil mortos e expulsou outro 1,8 milhão de suas casas. Milhares de muçulmanos e croatas foram mortos, torturados ou desalojados para "limpar" a região de não sérvios.

Após sua prisão nesta quinta-feira, o ex-comandante compareceu a uma sessão fechada de uma corte em Belgrado . No entanto, a audiência e seu interrogatório foram suspensos logo depois por faltar um exame médico do acusado e por sua condição de saúde, disseram seus advogados.

As autoridades trabalham para extraditá-lo para o tribunal de crimes de guerra da ONU em Haia, Holanda. Como é provável que ele entre com uma apelação contra essa medida, o processo pode demorar pelo menos sete dias.

*Com BBC, EFE, Reuters, AP e AFP

    Leia tudo sobre: sérviaratko mladicguerra dos bálcãssrebrenicabósnia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG