Primeiro-ministro nepalês renuncia fazendo acusações a presidente

Manesh Shrestha. Katmandu, 4 mai (EFE).- O primeiro-ministro nepalês, Pushpa Kamal Dahal, conhecido como Prachanda, renunciou ao cargo nesta segunda-feira e acusou o presidente Ram Baran Yadav de criar meios de limitar seus poderes.

EFE |

Em mensagem transmitida pela televisão, o maoísta Prachanda anunciou sua decisão, que ocorre pouco depois da perda de apoio do Partido Marxista-Lenininsta, seu principal parceiro na coalizão de Governo.

O líder do Partido Maoísta, que assumiu o cargo há quase nove meses, enviou também uma carta formal na qual comunicava seu pedido de demissão a Yadav. No texto, acusou o presidente de ter atuado "de forma ilegal e inconstitucional", com a intenção de "criar um centro de poder paralelo", segundo uma fonte consultada pela Agência Efe.

"A dualidade de poderes que foi estabelecida no país deve acabar a todo custo", disse Prachanda.

O maoísta também expressou sua insatisfação com a ordem presidencial que reverteu neste fim de semana uma medida de Prachanda pela qual o chefe do Exército, o general Rookmangud Katawal, foi destituído.

A cassação de Katawal, com quem Prachanda mantinha uma disputa nos últimos meses por causa de novos recrutamentos efetuados no Exército, levou o Partido Marxista-Leninista, principal parceiro dos maoístas na coalizão de Governo, a retirar seu apoio ao Governo.

Pouco antes da mensagem de Prachanda, o presidente havia reafirmado sua decisão através de uma nota, na qual alegou que tinha pedido a Katawal para permanecer no cargo "em virtude da confusão criada por sua saída".

Yadav pediu moderação no que chamou de situação "transitória e extraordinária", e repreendeu os maoístas por agirem sem contar com o consenso dos outros partidos.

Prachanda, por sua vez, acusou "alguns partidos políticos e centros de poder" de não agir de forma democrática.

"Isso tudo causa uma preocupação com nossa jovem democracia e o processo de paz", disse.

Após uma década de luta armada, Prachanda assinou em novembro de 2006 um acordo de paz com o Governo, liderado então pelo Partido do Congresso Nepalês.

O acordo fez com que o Nepal abolisse a Monarquia no final de maio de 2008, e os maoístas chegaram ao Governo após o pleito de abril do ano passado. O grupo, no entanto, precisava do apoio de outros partidos para conseguir uma maioria suficiente na Assembleia.

Entre as pendências do processo de paz está a elaboração de uma Carta Magna e a complicada integração de 19 mil ex-guerrilheiros maoístas ao Exército comandado Katawal.

Entretanto, os legisladores ainda não chegaram a um consenso sobre quem pode destituir o chefe do Exército, se o primeiro-ministro ou o presidente.

Prachanda também se queixou que seu Executivo enfrentou diversos problemas na Assembleia, como as greves constantes por "assuntos menores".

Os marxistas-leninistas e o opositor Congresso Nepalês - segunda e terceira forças da Assembleia - começaram a trabalhar hoje na formação de um Governo de salvação nacional.

Uma fonte do Congresso disse à Efe que sua formação não quer liderar o novo Executivo, mas apoiaria um liderado pelos leninistas.

Após uma reunião de sua cúpula, os maoístas deixaram claro que não irão facilitar essa saída, e anunciaram protestos a partir de amanhã. Eles serão intensificados três dias depois caso o presidente não voltar atrás em sua decisão, segundo o porta-voz do partido.

Fiel a seu estilo, Prachanda levou às ruas sua disputa com Yadav, o que acaba gerando uma perigosa situação de vazio no poder.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou ontem sua preocupação com a crise no Nepal e os "possíveis riscos para o processo de paz". Além disso, afirmou que os partidos devem resolver esta situação "por meio do diálogo". EFE ms/plc

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