Marina Villén. Cairo, 17 set (EFE).- Mesmo em uma cidade como o Cairo, que sempre propagandeou uma identidade cosmopolita, o respeito aos costumes e a pressão social transformam a compra e o consumo de álcool no Ramadã em uma verdadeira odisseia, inclusive para os não muçulmanos e estrangeiros.

Muitos bares desapareceram, cada vez mais restaurantes não servem álcool e os supermercados também não vendem, em uma tendência conservadora que se arrasta há anos no Egito e que se acentua durante o mês sagrado muçulmano, quando parece se impor uma autêntica lei seca.

Apesar de não existir uma proibição expressa, bebidas alcoolicas ficam durante o período relegadas praticamente ao âmbito privado e a hotéis de luxo.

"Embora o islã proíba o álcool durante todo o ano, nós servimos, mas não no Ramadã, que é um mês sagrado em que a religião ganha maior importância", explicou à Agência Efe Ibrahim Mahmoud, encarregado do restaurante Felfela, no Cairo.

Mahmoud disse que neste mês "só os hotéis podem servir álcool" e que, por isso, muitos pontos preferem fechar suas portas enquanto outros oferecem bebidas alcoólicas "em segredo".

Alguns restaurantes optam por servir a cerveja diretamente nos copos para evitar que as garrafas fiquem visíveis, como é o caso do pomposo Greek Club, na baía de Alexandria.

Porém, não escapam de fechar na capital egípcia os clubes noturnos e os cassinos da Avenida das Pirâmides, assim como dois dos poucos locais da moda, o After 8 e o Jazz Club, que em seus sites se despedem da clientela até o fim do mês sagrado muçulmano.

Também não se salvam os pequenos e sórdidos "ahwas" (cafés) da rua Alfy, cujo público masculino não pode aproveitar agora de sua maior fonte de entretenimento: consumir cerveja e bebidas locais em um ambiente de penumbra e luzes de neon.

"As religiões não podem se impor e um costume como esse também não", opina o espanhol Luis López-Polín, que mora no Egito, em referência às dificuldades para comprar e consumir álcool em um país no qual vivem cerca de dez milhões de cristãos.

Do mesmo modo se expressou o francês Timothée de Grivel, que, embora não se sinta incomodado com as restrições, pensa que "cada um deveria ser responsável por sua maneira de fazer o Ramadã".

Se o consumo de álcool já é complicado nessas datas, sua compra é ainda mais difícil, já que as lojas especializadas, como as da rede "Drinkies", e grande parte dos poucos estabelecimentos que vendem licor fecha até o fim do Ramadã.

Os donos das lojas de bebidas alcoolicas são em sua maioria cristãos, mas encerram seus negócios por respeito aos muçulmanos e aos costumes do Egito, onde, segundo as autoridades, não há instruções explícitas que proíbam a venda.

De todas as formas, cada local usa seus truques para seguir funcionando. A cadeia "Drinkies", aparentemente fechada ao público, mantém seu serviço de entrega em casa, mas nessas épocas a espera pode se estender por duas horas, já que os armazéns ficam nos arredores do Cairo.

As pequenas lojas de licor que seguem abertas optam por mudar suas vitrines, e onde antes havia uma garrafa de uísque há uma de azeite.

As restrições sociais e morais acabam se impondo em um país onde 10% da população é cristã copta e que conta com uma grande comunidade de residentes estrangeiros.

"Estou de acordo com o fechamento das lojas e de alguns bares se for uma decisão pessoal dos donos, mas não se for uma imposição governamental ou devido à pressão social", disse à Efe o francês De Grivel.

Mas, enquanto os estrangeiros gozam de uma liberdade total na hora de consumir bebidas alcoólicas em hotéis e restaurantes, os egípcios não têm vida tão fácil.

Os garçons de muitos locais solicitam o passaporte aos clientes para comprovar sua nacionalidade, já que no Ramadã não servem álcool a seus compatriotas, nem mesmo aos coptas.

Em um país como o Egito, preocupado em manter as aparências, o conservadorismo brota e o álcool é, além de "haram" (pecado), um luxo proibido e quase inacessível durante o mês sagrado muçulmano.

EFE aj/rr

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