Pressão pró-Tibete gera onda nacionalista na China

Circulam pela internet na China pedidos de boicote aos produtos franceses como resposta aos protestos que atrapalharam a passagem da tocha olímpica por Paris, em mais um indício do que analistas avaliam ser a escalada de um sentimento nacionalista no país. A mensagem, que é repassada por e-mail, chegou a ser publicada em alguns sites e pede que chineses deixem de comprar produtos franceses como cosméticos, bolsas de luxo e perfumes.

BBC Brasil |

Na segunda-feira, em Paris, os responsáveis por carregar o fogo olímpico tiveram de extinguir a tocha e circular em ônibus para se esquivar dos protestos.

A nova onda nacionalista teria começado a surgir após a erupção dos protestos a favor da independência do Tibete, em 14 de março, em Lhasa, principalmente quando vieram à tona erros de interpretação cometidos pela imprensa internacional na cobertura das manifestações.

Alguns órgãos, como o jornal alemão Bild, publicaram fotos de soldados nepaleses agredindo monges em Katmandu com legendas que davam a entender que se tratavam de policiais chineses em Lhasa.

"É preocupante, pois os chineses que moram no exterior acham que as notícias foram distorcidas, e isso produziu sentimentos nacionalistas muito fortes", afirma o professor Robert Barnett, especialista em Tibete da Universidade de Columbia, em Nova York.

Censura
Enganos como esses despertaram a ira dos chineses que estão fora do território da China e têm livre acesso à internet.

O acesso a informações sobre o Tibete é restringido pela censura dentro da China, mas a notícia do equívoco causado pela mídia ocidental foi amplamente divulgado nos veículos do governo.

Estudantes chineses em diversos países se mobilizaram e criaram sites que hostilizam a cobertura dos protestos pela imprensa ocidental, como por exemplo a página anti-cnn.com, que já foi tirada do ar, mas, antes, acusava a mídia de ter objetivos secretos.

"Toda a imprensa ocidental reportou que houve uma repressão aos protestos no Tibete, mas usou fotos do Nepal pra ilustrar isso", diz Lau Nai Keung, membro veterano do CCPCC, comitê de representantes do Partido Comunista da China que dá sugestões de novas políticas ao governo da China. "A notícia da repressão é simplesmente uma mentira."
"É claro que a legitimidade do governo chinês se fortalecerá com todos os ataques da imprensa ocidental a China, não apenas na questão do Tibete, mas em qualquer assunto imaginável", enfatiza Barry Sautman, professor de ciências sociais, especializado em China, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

Interesses
No momento, muitos chineses que participam de chats não censurados na internet afirmam que o Ocidente está dando ênfase à questão dos direitos humanos em conexão com os Jogos Olímpicos por ter interesse em enfraquecer e desestabilizar o crescente poder do país asiático.

O sentimento de que há uma agenda pragmática dos países ocidentais é comum entre os chineses, na opinião de especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

"Os chineses estão se ressentindo desta campanha anti-China e acreditam que isso tem por objetivo bloquear a ascensão da China à proeminência (internacional)", afirma Sautman.

"Existe muita troca de interesses internacionais a portas fechadas (entre a China e o Ocidente), e é uma coisa que irrita muito a nós, chineses, porque sentimos que estamos sendo abusados pelos últimos 170 anos", diz Lau Nai.

Pressão externa
A pressão externa por maior respeito aos direitos humanos na China, liderada por organizações como a Anistia Internacional e a Repórteres Sem Fronteiras, pode não ser bem recebida pela maioria dos chineses.

Segundo Barnett, a reação ultranacionalista dos chineses às criticas ao país "não foram previstas pelas organizações internacionais".

"Eles (o Ocidente) pensam que vão expor o governo da China às criticas do povo chinês e serão capazes de mudar o sistema político, mas é exatamente o contrário o que está acontecendo", diz Sautman.

"Os resultados dessa campanha anti-China que os governos e a imprensa ocidental vão obter serão justamente o oposto aos resultados desejados", aponta o professor da universidade de Hong Kong.

"A China já é a segunda maior economia do mundo e ela vai passar os Estados Unidos em menos de uma década", afirma Lau Nai. "Claramente isso é um fenômeno assustador."
"Como o mundo ocidental pode digerir isso?", questiona o veterano do CCPCC. "Se você seguir ameaçando a China, enfurecendo o povo chinês, certamente o mundo não será um lugar melhor dentro de dez anos."

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