Pressão internacional pela libertação dos reféns das Farc diminuirá, afirma especialista

O resgate da franco-colombiana Ingrid Betancourt e de mais 14 reféns envolveu uma operação sigilosa e inesperada. A falta de detalhes e a magnitude dos acontecimentos favorecem especulações sobre os desdobramentos que propiciaram a libertação e ainda põe em xeque a força política das Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas enquanto houver reféns nas mãos da guerrilha, esse não será o fim da batalha pela libertação.

Juliana Souza e Nathália Goulart, do Último Segund |

Presidente francês, Nicolas Sarkozy, ao lado de sua mulher recebe Ingrid

As Farc, guerrilha criada em 1964, mantém hoje ainda cerca de 700 reféns em seu poder, mas somente 25 são considerados seqüestrados políticos e servem como ferramenta de negociação para a libertação dos guerrilheiros presos pela Colômbia. O resto é fonte de lucro da guerrilha e podem ser libertados a troco de dinheiro.

Com a libertação de Ingrid Betancourt, a pressão internacional pela libertação dos reféns irá diminuir, afirma o especialista da USP Giorgio Romano Schutte. As chances da Venezuela se envolver em outra operação, como quando a companheira política de Betancourt, Clara Rojas, e a deputada Consuelo Gonzáles, foram resgatadas são pequenas, tendo em vista que o presidente Hugo Chávez se fechou para a Colômbia quando o país cortou as relações diplomáticas com o Equador.

Para ele, a questão das Farc agora se tornará um assunto interno, pois entre os reféns políticos ainda existem importantes figuras da política colombiana.

Declínio das Farc

A libertação de Ingrid, uma figura com apelo político e grande poder de troca para a guerrilha, assim como a dos outros reféns, pode ser vista como um esfacelamento das Farc, conseqüente do sucesso político da estratégia de combate do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Edson Nunes, ouvido pelo Último Segundo, não existe outro ponto de vista a ser considerado. "A libertação diz respeito ao enfraquecimento político das Forças Revolucionárias e não existe outra maneira de tratar o impasse que não a militar, como Uribe vem procedendo".

AP
Esse enfraquecimento político das Farc, segundo o especialista da USP Giorgio Romano Schutte, representa uma tendência. A primeira derrota da guerrilha aconteceu no dia 1º de março, quando o Exército da Colômbia realizou uma incursão militar em território equatoriano que resultou na morte de dois importantes comandantes. "Esse foi o primeiro grande revés que as Farc sofreram", pontuou Nunes. "Foi uma ataque muito bem realizado (por parte do governo colombiano) por sinal, capaz de tirar bastante apoio político internacional que as Farc recebiam", opina.

Foi nesse momento também que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, antes com baixos índices de popularidade, se fortaleceu no âmbito interno e se isolou internacionalmente, rompendo relações com o Equador, lembra Schutte.

Mas, o que realmente desestruturou o comando das Farc e acabou de certa forma "facilitando o resgate", como afirma Schutte, foi a morte de Manuel Marulanda, organizador e principal líder do grupo, de um ataque cardíaco em junho. Tirojifo, como era conhecido, era muito carismático e não pôde ser substituído, deixando a guerrilha com problemas de comando.

"O resgate foi em um momento propício porque a morte de Marulanda mudou muito a organização das Farc, que além de já ter aberto mão de seus objetivos políticos há tempos, perdeu suas referências", diz o especialista da USP.

Para ele, a guerrilha está se perdendo e existem grandes possibilidades das Farc se dividirem em três. Haverá os guerrilheiros que irão se entregar ao governo colombiano, como já tem sido visto. Acredita-se que esse ano 200 já se renderam. Uma outra parte pode se tornar uma "espécie de Comando Vermelho", envolvida completamente com o tráfico de drogas. Uma terceira parte, que Schutte acredita que será um grupo muito pequeno, continuará na luta armada, mas será mais fácil de ser combatido pelo Exército da Colômbia.

"Tudo depende de como Uribe irá se comportar agora", acrescenta Schutte.

Operação de risco

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A natureza e complexidade da operação que resultou na libertação da última quarta-feira favorecem o surgimento de especulações. Detalhes básicos da operação e de conversas entre governos permanecerão ainda em segredo durante muito tempo. "Vão surgir boatos atrás de boatos e ficaremos pouco informados sobre o que aconteceu. Isso é natural devido à magnitude do processo", afirmou o professor da PUC-SP, que lamenta que governos da América Latina, como o Equador, tenham tentado interferir no processo militar sugerindo que a negociação entre o governo e as Farc fosse a maneira mais apropriada para solucionar o impasse. "A declaração do Brasil de felicitar o não derramamento de sangue já supõe que a negociação poderia ter sido o caminho. O governo brasileiro poderia ter sido mais efusivo", afirma Nunes. "Mas de qualquer maneira, o resultado da missão foi muito útil".

Já Schutte acredita que, apesar desse resultado ter sido pequeno considerando o tempo que Uribe vem tentando uma ação contra as Farc e pelo número de reféns nas mãos da guerrilha, ele precisava desse sucesso para se fortalecer. O líder colombiano foi eleito em 2002 com uma agenda forte de ser diferente, pregando a via de negociação com a guerrilha, mas nunca foi levado muito a sério. Acusado de realizar favores em troca de votos pela emenda da reeleição, sua popularidade estava em baixa. Hoje, uma pesquisa realizada mostra que ela subiu para 91,72%.

Porém essa foi uma operação de risco e as chances de algo dar errado eram muito grandes, podendo resultar até na morte dos ex-reféns. "Uribe não teria se envolvido se ele não tivesse a certeza do sucesso do resgate", afirma Schutte. Segundo o especialista da USP, ele provavelmente devia contar com o apoio interno dos guerrilheiros.

"Agora que a emoção dos acontecimentos baixar, as pessoas vão começar a analisar: será que Uribe correu um risco tão grande? Se ele tinha tanta confiança em seu Exército, porque ele não conseguiu nos últimos seis anos?", argumenta.

Mesmo assim, ele não acredita que os governos da Colômbia e da França tenham realmente pago o valor de US$ 20 milhões para as Farc, como foi divulgado por uma rádio suíça nesta sexta-feira.

O professor da PUC-SP, Edson Nunes, concorda e também classifica a hipótese de pagamento como "pouco provável, senão impossível". "Se pagou foi para comprar elementos das Farc para que traíssem as Forças. Mas não pagou para os guerrilheiros como foi noticiado", afirma.

Influência dos EUA

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A questão das Farc também depende muito do resultado das eleições dos EUA, mais importante aliado da Colômbia, afirma Schutte. Os democratas têm outra visão da relação norte-americana com a Colômbia, como pode ser visto pelo Congresso, controlado pelo partido, que diminuiu a ajuda financeira ao Plano Colômbia. Para Uribe, a vitória do republicano McCain seria muito mais satisfatória do que a de Obama.

A coincidência entre a visita de McCain à Colômbia e a libertação dos 15 reféns, que incluíam três norte-americanos, soa como oportunismo ao professor da PUC-SP, Edson Nunes. "McCain deve ter sido avisado pelo governo Bush (republicano também) sobre a libertação e foi colher os louros da vitória de Uribe". A própria Casa Branca, como noticiou o Último Segundo, confirmou a cooperação dos EUA no planejamento da operação, apesar de garantir que não houve interferência na realização da missão e que o presidente Bush estava completamente interado do assunto.

O objetivo da viagem de McCain de três dias à América Latina e o México foi a de deixar claro ao eleitorado norte-americano que o candidato é mais preparado para lidar com assuntos internacionais que seu oponente, o senador Barack Obama. "Essa coincidência pode ter deixado Obama em maus lençóis", opina.

Entretanto, uma participação de McCain no planejamento ou mesmo alguma contribuição para que o processo fosse acelerado pode soar descabida., já que ele não faz parte do governo e é apenas candidato ¿ até agora atrás nas pesquisas eleitorais norte-americanas ¿ ao cargo de presidente. Ao professor, a situação se parece mais com um oportunismo comum na política e não é de se espantar que isso tenha ocorrido.

O presidenciável republicano não teria força política para manobrar a libertação de 15 reféns e precisaria assumir um risco muito grande ao abandonar a corrida eleitoral para desempenhar funções governamentais que não dizem respeito ao seu cargo. "Repito: essa foi uma vitória de Uribe, que, no fim, reflete uma política próximo dos republicanos".

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