Presidente do Sudão do Sul promete paz em regiões fronteiriças

Salva Kiir ofereceu anistia a grupos armados que lutam contra seu governo e prometeu trabalhar com líder sudanês, Omar al-Bashir

iG São Paulo |

Em seu primeiro dia como presidente do Sudão do Sul, Salva Kir prometeu promover a paz em regiões fronteiriças e ofereceu anistia a grupos armados que lutam contra o seu governo, horas depois de seu Estado ter declarado independência do norte neste sábado.

O Sudão do Sul nasceu neste sábado, depois que a separação venceu um referendo realizado em janeiro, resultado de um acordo de paz de 2005, responsável pelo fim de décadas de guerra civil contra o norte.

"Eu quero assegurar ao povo de Abyei, Darfur, Nilo Azul e Kordofan do Sul que não os esquecemos. Quando vocês choram, nós choramos. Quando vocês sangram, nós sangramos", afirmou Kiir na cerimônia de independência na capital Juba. "Eu prometo a vocês que acharemos uma paz justa para todos", afirmou, acrescentando que trabalhará com o presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, para cumprir esse objetivo.

Todas as regiões que ele mencionou estão na problemática fronteira que o sul divide com o norte e que, segundo especialistas, podem reacender as tensões após a separação. Abyei é uma região rica com reservas de petróleo, que ambos os lados reivindicam. Darfur é palco de uma insurgência que já dura oito anos contra Cartum. Nilo Azul e Kordofan do Sul ficam na parte norte, mas têm grandes populações que ficaram do lado do sul durante a guerra civil.

Em discurso neste sábado, o presidente sudanês, Omar al Bashir, afirmou que o êxito da nova República do Sudão do Sul será igualmente um êxito para Cartum. "Respeitamos nossos compromissos em relação ao novo Estado do Sudão do Sul e vamos ajudá-los em seus primeiros passos, já que desejamos que triunfem. Seu êxito será nosso êxito", declarou Bashir ante milhares de sulistas, durante a cerimônia de independência.

Bashir também pediu paz e relações fraternais entre o sul e o norte, depois de várias décadas de conflito. "É nossa responsabilidade comum construir (uma relação) de confiança, que permitirá resolver as questões em suspenso", acrescentou.

Juramento

Ao tomar posse como líder do novo país, Salva Kiir prestou juramento como primeiro presidente do Sudão do Sul e assinou a Constituição transitória, comprometendo-se a "favorecer o desenvolvimento e o bem-estar do povo do Sudão do Sul".

O Sudão do Sul se proclamou independente neste sábado, separando-se do norte depois de cinco décadas de conflitos que mergulharam o novo país em uma miséria da qual espera sair graças a suas ricas reservas de petróleo. O novo país celebrou seu primeiro dia como Estado independete ao erguer sua nova bandeira em meio a comemorações populares pelas ruas.

Uma multidão saiu às ruas de Juba à meia-noite de sexta-feira para sábado, para celebrar a proclamação da independência. Ao soar os sinos de meia-noite, uma explosão de alegria comemorou a chegada do primeiro dia de vida do novo Estado. "Somos livres! Somos livres! Adeus ao norte, bem-vinda a felicidade!", clamava em meio à multidão Mary Okach.

"Lutamos muitos anos e esse é nosso dia, vocês não podem imaginar como me sinto", declarou por o estudante universitário Andrew Nuer, 27 anos, que viajou do Cairo especialmente para assistir aos festejos da independência.

O ruído era ensurdecedor na capital do novo Estado, cujo céu iluminou-se com fogos de artifício enquanto carros e ônibus repletos de pessoas que percorriam as ruas com bandeiras do Sudão do Sul em suas portas e janelas, enquanto os motoristas buzinavam.

Líderes

Horas antes da meia-noite, diversos líderes mundiais, entre eles 30 líderes africanos e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegaram a Juba para as comemorações da independência do novo Estado. "O povo do Sudão do Sul realizou seu sonho. A ONU e a comunidade internacional continuará do lado do Sudão do Sul", declarou Ban Ki-moon ao chegar ao aeroporto da capital.

O governo sudanês de Cartum reconheceu a futura República do Sudão do Sul, apesar de questões-chave ainda precisarem ser resolvidas entre ambos os países, como o estatuto das províncias fronteiriças em disputa.

Neste sábado, o presidente americano, Barack Obama, anunciou que os Estados Unidos reconhecem formalmente a República do Sudão do Sul. "Em um momento em que sudaneses do sul empreendem a dura tarefa de construir seu novo país, os Estados Unidos prometem acompanhá-los enquanto buscarem segurança, desenvolvimento e um governo responsável, que realize suas aspirações e respeite os direitos humanos", disse o presidente americano em comunicado.

O governo brasileiro anunciou formalmente o estabelecimento de relações diplomáticas com o Sudão do Sul. Em comunicados divulgados neste sábado, o Itamaraty disse que "saúda a proclamação de independência", que se segue a um acordo de paz em 2005 e a um referendo popular, realizado no início deste ano.

"O governo brasileiro reitera sua disposição em cooperar com a República do Sudão do Sul e de contribuir para seu desenvolvimento social e econômico sustentável", disse o Itamaraty. "Ciente das questões ainda pendentes entre o novo país e a República do Sudão, o governo brasileiro manifesta confiança de que as partes possam superar suas diferenças por meio do entendimento e do diálogo e trabalhar de forma conjunta rumo à estabilidade e à prosperidade."

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, também anunciou o reconhecimento oficial por parte do Reino Unido. "Nós acolhemos o Sudão do Sul na comunidade de nações e e estamos ansiosos para estabelecer laços mais estreitos entre o Reino Unido e o Sudão do Sul nos próximos meses e anos vindouros", afirmou Cameron em texto oficial.

Guerras

Entre 1955, um ano antes da independência da Sudão (até então uma colônia anglo-egípcia), e 2005 os rebeldes sulistas entraram em duas guerras contra Cartum reclamando maior autonomia. Os conflitos arrasaram a região, deixaram milhões de mortes e levara à desconfiança recíproca entre os dois lados do país.

O acordo de paz firmado em 2005 pelo líder dos rebeldes John Garang - alguns meses antes de sua morte num acidente de helicóptero - e o então presidente do Sudão Ali Osman Taha abriu um novo capítulo que possibilitou o referendo sobre a independência, realizado em janeiro deste ano.

A nova nação deve enfrentar grandes desafios, como os confrontos na fronteira que já provocaram 1,8 mil mortes neste ano, problemas de infraestrutura, um dos indicadores sociais menos desenvolvidos do mundo, negociações sobre a separação de bens e a reestruturação de setores com o Norte.

*Com AFP e Reuters

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