Presidente de Madagascar renuncia

O presidente de Madagascar, Marc Ravalomanana, apresentou nesta terça-feira sua renúncia, transferindo seus poderes a uma junta militar, confirmaram à AFP diplomatas em Antananarivo.

AFP |

Alguns minutos antes, o líder da oposição de Madagascar, Andry Rajoelina, entrou na sede da presidência, no centro da capital, acompanhado por milhares de partidários e saudado pelos que o ajudaram a tomar o controle do edifício na segunda-feira.

O opositor chegou ao local procedente da praça 13 de Maio, onde durante um comício agradeceu ao exército pela ajuda. Rajoelina, ex-prefeito destituído de Antananarivo, entrou no local protegido por militares, que levantaram os fuzis em sinal de vitória.

O exército malgaxe invadiu na segunda-feira à noite a sede da presidência no centro da capital provocando a fuga do presidente Marc Ravalomanana para um palácio presidencial situado nos arredores de Antananarivo.

"No decreto 2009-001 com data de 17 de março de 2009, o presidente da República decidiu conceder plenos poderes a uma junta militar", afirma um comunicado assinado por Ravalomanana.

O texto acrescenta que a junta "é dirigida pelo militar de maior patente" das Forças Armadas.

"A junta militar acumula as funções do presidente da República e as de primeiro-ministro, de acordo com a Constituição", completa o texto.

O Conselho de Paz e de Segurança (CPS) da União Africana (UA) fez um apelo à "segurança do presidente", ao final de uma reunião de emergência em Addis Abeba sobre a crise em Madagascar, comprovou a AFP.

Desde sua chegada ao poder, em 2002, Marc Ravalomanana, até então um empresário, viu se esfumaçar sua aura com o passar dos anos, devido à incapacidade para melhorar a vida dos malgaxes e a seu autoritarismo.

O apoio popular conquistado em 2002, quando afastou Didier Ratsiraka do cenário político ocupado durante 30 anos, foi-se apagando à medida que não cumpria as promessas de "desenvolvimento econômico rápido" na grande ilha do oceano Índico.

Isso, apesar da reeleição no primeiro turno das presidenciais de dezembro de 2006, e das vitórias eleitorais em 2007 e 2008 num referendo constitucional, nas legislativas, seguidas de municipais, regionais e senatoriais).

Em dezembro de 2007, o fracasso de seu candidato à prefeitura de Antananarivo, ante o jovem independente Andry Rajoelina, foi o começo do fim; passou a ser alvo de uma antipatia crescente na capital.

O ano de 2008 mostrou os pontos fracos de seu governo e cristalizou críticas contra a violação das liberdades civis no país.

Passou a dar a impressão de governar sozinho, em meio ao autoritarismo.

Assim, não concretizou as promessas de abertura democrática: o sistema eleitoral que tanto criticou ficou como estava, a oposição foi proibida de ter acesso ao sistema de rádio e televisão pública e muitos meios de comunicação tiveram que fechar as portas.

Ravalomanana, que um dia propôs reformar em profundidade a sociedade e a economia malgaxes, ficou desconectado da população. A maioria dos malgaxes vive abaixo do umbral da pobreza.

A falta de transparência num projeto sul-coreano Daewoo Logistics, para explorar até 1,3 milhão de hectares na grande ilha, atiçou o rancor dos que o acusavam de vender mal a terra malgaxe.

Aos 59 anos, Ravalomanana, casado e pai de quatro filhos, construiu um império agroalimentar sem paralelo em Madagascar, a partir do zero. Nascido de uma família camponesa, começou a vida distribuindo leite.

Com o tempo, Ravalomana acumulou imensa riqueza que lhe valeu o apelido de "Berlusconi malgaxe".

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