Javier Aja Dublin, 6 mai (EFE) - Com uma cerimônia de apenas dois minutos, a presidente da Irlanda, Mary McAleese, assinou hoje a carta de renúncia do primeiro-ministro, Bertie Ahern, e, assim, pôs fim a uma era política marcada pelo progresso econômico e o fim do conflito na Irlanda do Norte. Passaram-se dez meses desde a última visita de Ahern a Áras an Uachtaráin, o palácio presidencial. Naquela ocasião, o dirigente republicano renovava seu cargo de Taoiseach (primeiro-ministro), após obter nas urnas seu terceiro mandato consecutivo.

Entretanto, perseguido desde então por irregularidades em suas finanças pessoais, o já histórico líder voltava hoje a esse mesmo lugar para entregar agora um poder que ostentou durante mais de dez anos.

Ahern negou que tenha recebido pagamentos ilegais de construtoras irlandesas nos anos 90 e explicou que sua renúncia é "uma decisão pessoal" tomada "só em interesse do povo" com o objetivo de "endireitar a dinâmica da política nacional", dominada durante os últimos meses por esta situação.

Apesar de ninguém poder prever o resultado das investigações do citado tribunal anticorrupção e o dano que poderia sofrer sua reputação, Ahern recebeu, durante o último mês, afagos da comunidade internacional e dos principais partidos irlandeses.

Na semana passada, o ex-primeiro-ministro se dirigiu a uma sessão conjunta do Congresso e do Senado dos Estados Unidos, o que o torna o quarto chefe do Governo de todo o mundo a discursar perante esse fórum e diante do Parlamento britânico de Westminster.

A Administração americana queria reconhecer o papel de Ahern no processo de paz da Irlanda do Norte e sua contribuição para modernizar a Irlanda, um dos países mais prósperos do Ocidente desde que o ex-chefe de Governo chegou ao poder, em 1997.

Significativamente, em seu penúltimo ato como "Taoiseach", ele se reuniu hoje com seu colega norte-irlandês, o reverendo Ian Paisley, no campo de batalha do rio Boyne, no condado irlandês de Louth.

Esse foi cenário das lutas entre católicos e protestantes desde o século XVII e símbolo, agora, do novo clima de conciliação entre o norte e o sul da ilha.

No entanto, o último evento oficial de Ahern, atento ao mínimo detalhe até o final, servirá para reafirmar suas credenciais republicanas, nacionalistas e católicas.

O líder assistirá amanhã, quarta-feira, já como "Taoiseach interino", a uma cerimônia comemorativa da Revolta de Páscoa de 1916, em Dublin, a sangrenta rebelião contra o Reino Unido e data-chave na guerra de independência irlandesa.

Perguntado hoje sobre seu sentimento por abandonar o poder, Ahern confessou que gostaria de "ficar um ano mais" à frente do Executivo de Dublin.

"Mas é bom, afinal de contas é preciso avaliar todas as coisas, e sentia que este era o momento de sair", disse Ahern, que, segundo ele, tinha previsto, a princípio, abandonar o poder depois das eleições locais de 2009.

O ex-primeiro-ministro disse sentir-se "triste" pela maneira como deixa o poder, mas reconheceu que, "após 31 anos como deputado, 21 no Governo e quase onze como 'Taoiseach'", teve uma boa carreira política.

Com todos seus defeitos e virtudes, o "Taoiseach de teflón", apelido dado por sua habilidade para repelir temporais, é ainda um dos políticos mais importantes nacional e internacionalmente e, de fato, não são poucos os que lhe vêem como um futuro presidente da União Européia (UE).

Neste sentido, o reverendo Ian Paisley, que também abandonará o poder no final deste mês, sugeriu hoje que Ahern merece chegar algum dia à Presidência da Irlanda, já que Mary McAlesee deixará o cargo dentro de dois anos.

"Ou pode ser que vá à Europa (à União Européia) - acrescentou o reverendo -, já que tenho certeza de que não vou ficar quieto durante os próximos dois anos".

O sucessor de Ahern à frente do partido majoritário Fianna Fáil, o vice-primeiro-ministro e titular de Economia, Brian Cowen, será ratificado como novo "Taoiseach" nesta quarta-feira, após uma votação no Parlamento nacional, o "Dáil". EFE ja/rb/db

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