Presidente da Costa do Marfim pede saída de forças de paz da ONU

Exigência é escalada de disputa com a comunidade internacional após as contestadas eleições presidenciais de 28 de novembro

iG São Paulo |

O governo do presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, disse às missões de paz da Organização das Nações Unidas e da França que deixem o país, anunciou neste sábado a ministra de Educação do governo de Gbagbo, Jacqueline Lohoues Oble, ao ler comunicado na radiotelevisão marfinense "RTI".

"O governo exige a saída das forças Unoci e Licorne na Costa do Marfim, e é contra a qualquer renovação do mandato delas", disse um porta-voz, referindo-se às missões francesa e da ONU.

Reuters
Soldados rebeldes do líder da oposição da Costa do Margim, Alassane Ouattara, ajudam companheiro ferido durante confrontos com forças do governo (17/12/2010)
A Costa do Marfim enfrenta protestos desde as eleições presidenciais de 28 de novembro. Gbagbo se declarou vitorioso com apoio do maior órgão legal do país, dizendo que resultados fraudulentos apontaram sua derrota ao rival Alassane Ouattara. A ONU e a França, porém, pedem que Gbagbo reconheça sua derrota.

No comunicado lida na "RTI", Jacqueline lamentou um choque entre militares marfinenses e milicianos das Forças Novas - antiga milícia rebelde, que apoia Ouattara -, o primeiro de que se tem conhecimento desde o fim da guerra civil no país em 2007.

A nota reivindica a saída imediata da Onuci e das forças francesas do território marfinense. Segundo o texto, "isso implica que o governo marfinense se opõe à renovação dessa operação (da ONU), que expira em 20 de dezembro de 2010".

A ministra acusou a Onuci de parcialidade e de fornecer armas aos ex-rebeldes das Forças Novas, que, segundo ela, atacaram na quinta-feira as Forças Armadas marfinenses na localidade de Tiebissou, a cerca de 50 quilômetros de Yamoussoukro, capital administrativa da Costa do Marfim.

As Forças Novas - em declarações divulgadas em Bouaké, onde fica o principal reduto delas - reconheceram o enfrentamento e a ocorrência de mortes, mas não deram detalhes, o que aumenta os temores sobre o reatamento da guerra civil que dividiu o país entre 2002 e 2007.

A mensagem de Gbagbo ocorre pouco depois de um de seus principais partidários, Charles Blé Goudé, líder do grupo Jovens Patriotas, acusado pela ONU de graves violações dos direitos humanos na guerra civil, pedir a seus seguidores que se preparem para lutar contra Ouattara, reconhecido pela comunidade internacional como presidente eleito da Costa de Marfim.

Gbagbo, que em 28 de novembro sofreu uma derrota eleitoral para Ouattara no segundo turno das eleições presidenciais marfinenses, segundo os resultados divulgados pela Comissão Eleitoral Independente (CEI), já não é reconhecido nem pela ONU nem pela França como chefe de Estado. Por isso, seu pedido não seria efetivo.

Na sexta-feira, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que as tentativas de Gbabgo de se manter no poder "não podem ser permitidas". Ele também advertiu que "qualquer tentativa de obstruir as operações da ONU ou de bloquear o Hotel Golfe (onde Ouattara estabeleceu o escritório do novo governo) são totalmente inaceitáveis".

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, após uma cúpula da União Europeia realizada nesta sexta-feira, ameaçou: "Gbagbo e sua mulher sofrerão sanções se, antes do fim de semana, não deixarem o posto que ocupam, transgredindo a vontade do povo marfinense."

"Estão obstruindo o processo de paz e reconciliação nacional" na Costa do Marfim, acrescentou Sarkozy, que lembrou que "houve eleições sob o controle da ONU" e "os países africanos e europeus reconheceram o presidente Ouattara como democraticamente eleito".

A Onuci tem cerca de 8 mil soldados na Costa do Marfim, que separam as Forças Armadas e de Segurança, que controlam o sul, das Forças Novas, lideradas pelo agora primeiro-ministro de Ouattara, Guillaume Soro, que não se desarmaram após os cinco anos de guerra civil e controlam parte do centro e do norte do país. Além disso, a França tem 900 militares mobilizados na Costa do Marfim, que apoiam os Capacetes Azuis.

Após as recentes ameaças dos militares marfinenses, que respaldam Gbagbo, contra Ouattara e a ONU, especialmente contra o representante da organização na Costa do Marfim, Choi Young-jin, os Capacetes Azuis aumentaram para 800 o número de soldados de proteção do Hotel Golfe, também defendido pelas Forças Novas.

Neste sábado, Abidjan permanecia deserta, numa calmaria carregada de tensão, após as declarações hostis dos partidários de Gbagbo.

A tensão e o medo do eventual retorno da guerra civil se agravaram na quinta-feira, quando pelo menos 30 manifestantes partidários de Ouattara e dois milicianos das Forças Novas acabaram morrendo por disparos dos militares, segundo números divulgados no Hotel Golfe.

Por sua vez, o governo de Gbagbo destacou que houve 20 mortes na quinta-feira - dez manifestantes partidários de Ouattara e dez membros das forças de segurança de Gbagbo.

Em dois comunicados divulgados após os fatos de quinta-feira, a Anistia Internacional (AI) acusa as forças de segurança marfinenses de disparar a curta distância contra pessoas indefesas durante as manifestações de dois dias atrás em favor de Ouattara e de impedir o atendimento de emergência aos feridos.

Em suas notas, a AI ressalta que os policiais responsáveis por essas ações "devem prestar contas" perante a Justiça.

*Com EFE e Reuters

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