BUENOS AIRES - A presidente argentina, Cristina Fernández Kirchner, demitiu na quinta-feira o presidente do Banco Central do país, acusando-o de má conduta por demorar em transferir recursos das reservas para o pagamento de dívidas.

A decisão intensifica uma crise política que pode ameaçar as aspirações argentinas de recuperar a confiança dos investidores.

O presidente destituído do BC argentino, Martín Redrado, que resistiu durante dois dias a um pedido de renúncia feito pelo governo, decidiu deixar o cargo para acatar o decreto presidencial, mas não se demitirá e apresentará um recurso perante a Justiça entre sexta e segunda-feira.

"Deixa o cargo em virtude do decreto da presidente, deve acatá-lo, mas não renuncia e vai apresentar um recurso contra esse decreto", disse uma fonte do banco central sob condição de anonimato.

Redrado será substituído interinamente por seu vice-presidente, Miguel Angel Pesce, disse Cristina. A presidente acusou Redrado de atrasar a transferência de US$ 6,569 bilhões das reservas do país para um fundo criado para pagar a dívida pública.

Foi "uma medida que eu preferia não ter que tomar", disse a presidente a jornalistas. "Realmente esperávamos um exercício de responsabilidade (de Redrado)... A decisão foi tomada porque o banco central tem que seguir funcionando", acrescentou.

A disputa ameaça se transformar em um confronto legal entre o governo e Redrado, apoiado pela oposição, fortalecida após a eleição legislativa do ano passado, na qual o governo perdeu a maioria no Congresso.

O risco-país argentino saltou 25 pontos percentuais a 681 pontos após a divulgação da decisão presidencial, alcançando o nível mais alto desde 21 de dezembro, segundo o indicador elaborado pelo JP Morgan. Posteriormente o índice recuou para 668 pontos.

Cristina emitiu o decreto em caráter de urgência para despedir Redrado, um economista com prestígio internacional, apesar de o Congresso ser o único organismo com competência para remover o titular do Banco Central.

De acordo com advogados, a decisão pode provocar um conflito de poderes, pois parlamentares ameaçam denunciar a presidente judicialmente por entender que ela atropelou o Congresso.

Cristina também ordenou a denúncia judicial de Redrado por "descumprimento dos deveres de funcionário público".

A disputa acontece poucos dias antes da Argentina lançar uma troca de bônus não-pagos por US$ 20 bilhões, o que poderia reabrir a porta para que o país volte a obter financiamento externo após oito anos de isolamento.

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